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MARCO MOREIRA - O meu fazer, cogita a tua percepção de ver

10 JAN - 2 FEV 2019

Marco Moreira (1978, Favaios) tem agora a segunda exposição individual no Módulo, reunindo trabalhos que remetem para a residência que realizou em 2018 em La Térmica, Centro Cultural de Málaga. Nesta exposição voltamos a encontrar o material, grafite, que tem sido uma constante no desenvolvimento da obra deste artista.

Sobre a exposição que agora se inicia escreve o artista:

O meu fazer, cogita a tua percepção de ver 

Durante quatro meses tive a oportunidade de participar numa residência artística na La Térmica, Centro de Cultura Contemporánea de La Diputación de Málaga, em Espanha, onde desenvolvi um conjunto de trabalhos que agora apresento nesta exposição individual, e que se intitula “O meu fazer, cogita a tua percepção de ver”.

Na primeira exposição individual que realizei nesta mesma galeria em 2015, encontrei-me em pleno Marquês de Pombal com Fernando, uma das várias pessoas presentes na inauguração, e mostrei-lhe o conjunto de trabalhos que pretendia desenvolver nesta residência em Málaga, e ele disse-me o seguinte: “Sabes, o artista não faz, é fazido - é isto mesmo, ‘é fazido’. A arte é uma casa com as

portas e janelas escancaradas, por onde as memórias entram e saem livremente num processo de diluição de significados. Nada é estático, nada é definitivo, está tudo num perpétuo movimento, onde a incerteza é soberana. As coisas são assim mas também podem ser de outra forma, ou melhor: as coisas são assim e de outra forma, e o artista é aquele que sabe posicionar-se e mover-se nesse sistema de equilíbrios que lhe permite ser uma espécie de porta voz de nós mesmos, do nosso interior profundo, do qual, desgraçadamente, só recebemos informação confusa que nos dificulta o viver autenticamente". Intrigado e surpreendido com as suas palavras, e perante o que lhe mostrava, ele prosseguiu dizendo: “Um artista é como o carteiro, a sua função é entregar a mensagem. Não é ele que cria a mensagem, ele apenas comparticipa com o seu modo de entregar, o seu estilo, o seu apego ou o seu desprendimento na elaboração do acto de entrega, mas a mensagem é exterior a ele. Porém, se não houvesse mensagem não havia carteiro, isto é, mensageiro, porque, o problema é que não existe mensageiro, o que existe é um sistema - ou um processo de informação a ser distribuído, e o mensageiro é apenas um dos elementos desse processo. Ora no universo da arte a realidade é idêntica: não há artista, apenas há arte e esse a quem chamam de artista é apenas o portador de algo que muitas vezes não entende mas que se sente impelido a apresentar á apreciação dos seus contemporâneos para que, juntos, possam ensaiar uma decifração - sempre hipotética - dos enigmas com que o real nos brinda neste eterno confronto que é a existência.”

Conluio o seu pensamento e despediu-se de mim, e cada um nós seguiu o seu próprio caminho, eu em direção à baixa e ele apanhando o metro que talvez o levasse à alta de Lisboa, nunca mais ouvi falar dele. Agora com esta exposição, apresento um conjunto de trabalhos que talvez me permita cogitar acerca da tua percepção do meu fazer.

Marco Moreira tem obras nas seguintes coleções públicas:

CAC Málaga, Centro de Arte Contemporâneo

Centro Municipal da Praia Vitória

Col. Fernando Figueiredo Ribeiro, QuARTel, Abrantes

Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa

Col. MG, Alvito

Fondazione Benetton Studi Ricerche