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RUI ALGARVIO - A norte de nenhum sul

26 MAI - 27 JUN 2017

Depois da bem sucedida primeira exposição de 50 pinturas sobre papel na galeria, Rui Algarvio mostra uma seleção das pinturas que se distribuíram recentemente por duas individuais do artista, uma no Museu Municipal de Ferreira do Alentejo e a outra, em Alvito, no Centro Cultural Raul de Carvalho e no Espaço Adães Bermudes.

Entrevista com Fátima Lopes Cardoso publicada na Artecapital relacionada com série de pinturas que vamos agora expor : 

Divide os seus dias entre Lisboa e o Alentejo, onde tem o seu atelier, num espaço que já foi escola primária, sede da associação de moradores com direito a projeção de cinema itinerante. No ano que terminou, Rui Algarvio transferiu os pincéis e as telas para o Museu Municipal de Ferreira do Alentejo, onde, durante um ano, criou, com o apoio da associação Inter. meada, 72 quadros onde a cor é o elemento dominante. Entre 29 de outubro de 2016 e 31 de janeiro deste ano, estes mesmos quadros interromperam a brancura das paredes do Espaço Adães Bermudes, no Centro Cultural Raul de Carvalho, no Alvito, com a exposição Tão grande como uma paisagem ao longe. Sem criar afetos com os lugares de trabalho, recolhe tudo e regressa agora ao seu atelier para continuar a transformar perceções da natureza em pintura, à medida que estes fragmentos parecem estar cada vez mais contaminados.

FLC: Em vários textos que acompanham o seu trabalho, refere que tem uma atitude contemplativa para com a natureza e que é esse caminhar desinteressado que o ajuda no processo criativo. Que ligação existe entre a sua obra e o mundo natural?

RA: Neste momento, interessa-me essa relação com a natureza, a paisagem, a forma como manipulamos e nos apropriamos do território. As viagens, o caminhar, o andar de bicicleta pela natureza, as travessias são uma ferramenta de trabalho. Mas existe uma não preocupação, essa forma desinteressada com que percorro o território. Já atravessei Bragança-Sagres e a rota das Aldeias Históricas de bicicleta. Percorro o território e vou percecionando o que é a nossa formar de ocupar o mundo. Não me interessa transformar o caminhar numa experiência estética, como faziam os artistas da land art. Não sinto necessidade de registar essas viagens. Por exemplo, não utilizo a fotografia como documento. Na viagem que fiz, durante sete dias, a Santiago de Compostela, não tirei uma única fotografia. Depois, são livros que vou lendo, outras referências que convergem para a pintura, para o meu atelier. São as inquietações de um determinado momento. Quando iniciei, por exemplo, a minha tese de mestrado, na Universidade Nacional Autónoma do México, havia uma inquietação relacionada com as massas humanas e as multidões. Sentia uma inquietação muito forte. Depois, há um outro lado, em que não quero saber muito bem como as coisas acontecem.


FLC: Os espaços naturais estão a desaparecer, perto das grandes cidades. Existe algum saudosismo e consternação da parte do pintor Rui Algarvio ou apenas uma constatação?

RA: É uma constatação, mas também consternação. Depois, há um lado político. Uma inquietação minha por essa ocupação humana ser tão evidente, mas tento que interfira o menos possível nesse processo criativo. Na minha obra, tento que esse lado moral e político seja apenas uma subcamada.


FLC: A sua obra é, como a descreveu o crítico de arte Alexandre Pomar, “uma reflexão sobre a paisagem e não uma representação. Quer comentar?

RA: A preocupação não é tanto representar uma paisagem, mas sim uma reflexão do que poderá ser uma paisagem, embora culturalmente o ser humano tenha ferramentas para atribuir essa definição de paisagem. No momento em que estou a trabalhar, deixo de pensar em paisagem e só penso em pintura. Há uma conjugação que me interessa muito, a de desfrutar da pintura com esse assunto pictórico. Neste momento, nem me interessa muito a paisagem, mas outras coisas.


FLC: A certa altura na sua obra, existe uma presença muito forte de caminho abertos, uma obsessão pelos caminhos? Que significados têm?

RA: O caminho que eu fazia pela natureza… A nível pictórico, interessava-me a perspetiva sobre qualquer coisa que se atravessa e, a pouco e pouco, vamos registando esse percurso. Sem o objetivo de encontrar algo mais além do caminho e desfrutar da experiência.


FLC: Qual é a importância do espaço de trabalho para um criador?

RA: Já tive tantos ateliers e em sítios diferentes. É um espaço onde nos sentimos relativamente bem, mas tento não criar muitas raízes com os ateliers. Este ano que terminou, estive numa residência em Ferreira do Alentejo, apropriei-me do espaço e rapidamente tiro de lá as minhas coisas.


FLC: Que ligação existe entre o pintor Rui Algarvio e o Alentejo?

RA: Passei todas as minhas férias escolares no Alentejo, na aldeia de Canhestros. Sinto-me mais alentejano do que de Lisboa. Quando era miúdo, fazia tudo aquilo que as crianças gostam de fazer: tomar banho na barragem, apanhar frutas, percorrer os caminhos de bicicleta, ainda mais porque a minha avó materna vivia numa ponta da aldeia e a avó paterna noutra. Essa obsessão que tive pelo caminho vem de um estradão que existe perto da aldeia e que tem uma série de ciprestes que vai dar à barragem onde tomava banho, quando era criança. Só hoje é que estabeleço esse tipo de associações. A paisagem também surge com a ideia que comecei das massas-multidões, que me criava urticária, tanta gente enfiada numa cidade, multidões a sair do metro e dos barcos. Depois, quando cheguei ao México, aquelas culturas pré-hispânicas, eles tinham uma relação com a natureza muito diferente da nossa. Havia respeito. Quando lá estive, aproveitei para viajar pelo México, conheci as províncias onde há mais presença dos povos astecas e maias. A determinado momento, a paisagem e a natureza passaram a ser uma inquietação mais presente, desde a saturação à ausência completa de gente.


FLC: Que elementos prefere evidenciar? Na sua pintura, há a hegemonia da cor…

RA: Nasci e cresci no Barreiro, que era uma cidade muito cinzenta. Fui para a Cidade do México e, curiosamente, era também uma cidade muito cinzenta. As pessoas associam muito a cor do meu trabalho por ter estado no México, mas não tem nada a ver. É apenas uma necessidade enquanto criador. Para mim, pintura é cor, é luz e depois é algo que acontece naturalmente. Faz-me sentido pintar daquela forma.


FLC: Somos sempre muito do tanto que nos inspira. Que correntes ou artistas da história da arte e do presente convivem ou habitam na sua pintura?

FLC: Estou sempre atento ao meio artístico e tento sempre perceber o que os outros criaram. Regresso frequentemente à História da Arte. O Cézanne e a sua obsessão pelo Mont Sainte Victoire montanhas. Se calhar, no caminho, existe esse paralelismo. Há uns anos, vi uma exposição do pintor austríaco Herbert Brandl, em Serralves, no Porto, que me tocou muito. Mas vou redescobrindo autores. Há pouco tempo, cruzei-me com uma pintura de Fragonard, na National Gallery, em Londres, que mexeu comigo; John Martin, John Constable, entre outros.


FLC: E o que o inspira e o leva ao seu atelier, neste momento?

RA: Estou neste jogo de utilizar o assunto paisagem, mas contaminando-a com muitas outras coisas. Essa desconstrução/construção, a saturação da paisagem e a forma como nos apropriamos do território. Ando muito pela zona saloia de Loures e aquilo nem é bem rural, nem é urbano. Tanto avistamos um rio e uma árvore belíssimos, como uma construção rosa gigantesca. A paisagem está muito contaminada. Existe um ensaio, Filosofia da Paisagem (1913), de Georg Simmel, e ele fala desse momento em que andamos pela natureza e, a determinado momento, selecionamos partes que percecionamos e sentimos como paisagem. Esses fragmentos são momentos que registo na memória. Depois, chego à tela e surgem várias paisagens na mesma paisagem.

Rui Algarvio tem vindo a despertar atenção de vários coleccionadores institucionais, como particulares. Obras suas figuram nas colecções Rui Algarvio tem vindo a despertar atenção de vários coleccionadores institucionais, como particulares. Obras suas figuram nas colecções Centro de Arte Contemporánea de Málaga, Fundación Pascual Ros Aguilar, Espanha, Fundação Carmona e Costa, Lisboa, Col. Fernando Figueiredo Ribeiro, Quartel de Abrantes, Col. MG, Alvito, Colecção Dietrich Mateschitz - Red Bull, Áustria, Luciano Benetton Collection.


PEDRO CALHAU - NOUS

21 ABR - 23 MAI 2017

NOUS consiste num grupo de pinturas e num livro de artista. Por sua vez, as pinturas, dividem-se em duas séries, a saber, Estrelas e SN (Siderius Nuncius ).

Para o desenvolvimento  do trabalho,  o artista considerou  para lá da própria definição do termo “nous” (à luz da filosofia), também o titulo do livro Siderius Nuncius (Mensageiro das Estrelas) de Galileu Galilei.  O processo que levou à realização deste corpo de trabalho assenta na curiosidade do artista pelo género do nocturno na pintura de paisagem. Assim como da vontade de tentar explorar o tema impressionado por Whistler, bem como outros autores de paisagem, norteamericanos como F. E. Church. 

A este desejo, juntou-se o uso da rede social Tumblr, onde foi tomando contacto com todo o tipo de referências culturais populares e onde amiúde, já tinha coleccionado um grupo de imagens de carros. Em 2016 outro ponto que é importante referir  são  as visitas regulares ao  site “Nasa day event”, onde a agência espacial norte-americana coloca uma imagem do seu acervo todos os dias, e que logo se configurou como uma peça importante para a conjuntura que aos poucos foi criando.

Todas estas motivações confluíram neste corpo de trabalho que apresenta no Modulo e que solicitaram por sua vez, a necessidade da construção de um livro de artista (com o mesmo nome), onde muitas destas problemáticas são colocadas no contexto alargado do percurso de trabalho do artista.  

PEDRO CALHAU tem vindo a despertar atenção de vários coleccionadores institucionais, como particulares. Obras suas figuram nas colecções da Fundação Carmona e Costa e Fernando Figueiredo Ribeiro (Quartel, Abrantes) ou MG do Alvito.


Pollyanna Freire - Escultura

3 MAR- 14 ABR 2017

Pollyanna Freire tem aqui a sua primeira individual com uma série de obras esculturais, agrupadas sob o título de “Escultura”.

Pollyanna Freire (1982, S.Paulo, Brasil) fixou-se no nosso país depois de uma formação em Artes Plásticas na Universidade Estadual de S.Paulo (2003), seguida de uma Pós-Graduação em Linguagens Visuais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009). Em Lisboa, realizou o Curso Avançado em Artes Plásticas no Ar.Co (2011).

Na sua biografia destacam-se as exposições dos Bolseiros e Finalistas do Ar.Co. que a deu a conhecer, seguida pela presença na exposição Me, Myself and I – IV Exposição de Desenho da Fundação Centenera Jaraba, em 2 012,em Madrid, onde recebeu uma menção honrosa.

Em 2014 ingressou no “Stable” do Módulo, tendo participado nas seleção da galeria para as Feiras Est Art Fair, Estoril e Summa International Contemporary Art Fair 2014, JustMad6 2015, estas duas últimas em Madrid. Ainda neste último ano foi seleccionada para o Prémio Novos Artistas da Fundação EDP 2015, que teve lugar no ano passado em Lisboa.

João Silvério, que assina o texto a seguir transcrito, escolheu esta artista para a exposição de grupo que comissariou no Módulo, O Pouco ou nada a diferença é pouca (2014).

“Escultura
O trabalho de Pollyanna Freire tem demonstrado uma preocupação com a escultura enquanto campo de experimentação nas diversas possibilidades dos modos de fazer em que a manualidade da execução tem uma particular importância. Não se trata aqui de observar os seus limites formais, seja na reflexão sobre o seu campo expandido ou na relação com determinados autores e práticas da escultura do séc. XX. Porém, trata-se de um vocabulário próprio que expressa relações geométricas entre a escala e a proporção com uma raiz matemática e geométrica muito vincada.
O título da exposição, “Escultura”, não poderia ser mais claro sobre a sua prática artística, e desta forma sobre o seu processo de trabalho, onde a repetição, e por vezes a replicação, de um módulo se reflecte em diferentes soluções que se desdobram numa investigação sistemática sobre um corpo no espaço e a relação deste com outros. As obras de Pollyanna Freire são expostas em conjuntos, como se se tratassem de séries, e de facto são elementos em que encontramos correspondências, mas que são desenvolvidos autonomamente, podendo ainda estabelecer diversas aproximações que nos levam a reconfigurar o espaço da exposição continuamente. As cores com que pinta as esculturas constituem uma paleta que vem seguindo nos seus últimos trabalhos e que, fazendo parte do seu vocabulário, contribui para essa possível associação entre as obras expostas.
Contudo, estas esculturas são de dimensão reduzida, quase à escala da mão, e são expostas no chão da galeria. A sua escala, muito próxima entre todas elas, traduz aparentemente uma condição transitória, como se fossem modelos ou maquetas de estudo pertencentes ao universo mais restrito do atelier, destinados à execução de obras com uma escala diversa e bastante ampliada. A questão essencial nesta exposição é que estas obras são peças finalizadas, que vão exigir ao espectador um movimento do corpo para as observar, em contraponto com uma visão panorâmica em que a sala de exposição é em si mesma um acto escultórico que transforma o espaço.

Mas estas peças não estão isentas de referências subtis, aplicadas de forma austera e transmutadas pela cor, que é aplicada a uma determinada forma e não a outra, trabalhando desse modo a luz como se de uma pintura se tratasse. Em algumas obras podemos reconhecer e associar elementos arquitectónicos, noutras uma passagem pelo universo visual do nosso imaginário da escultura do século passado, um vislumbre Pop que atravessa os anos sessenta e um pensamento construtivista, para regressar um pouco atrás. Os indícios são muitos, como a grelha minimalista, a forma cúbica ou paralelepipédica, o acabamento manual que se detém perante o virtuosismo formal e uma sensação orgânica, mais presente nas torções e menos evidente, mas também presente, nos encaixes de elementos que se replicam e constroem as formas onde o jogo entre o preenchimento e o vazio traduz a capacidade de trabalhar os volumes como se estes estivessem prontos a ser de novo trabalhados e manipulados como uma acção lúdica que se desenvolve na lógica interna do seu trabalho e que nos envolve enquanto acto escultórico no contexto da exposição.

E o trânsito do corpo por entre as obras que constroem um mapeamento no espaço integra-nos na sala da escultura como se estivéssemos sobre um imenso plano imaginário, mas concreto na permanente transição entre a escala e a proporção.

João Silvério Janeiro 2017”

Resultado das presenças de Pollyanna Freire nas escolhas que o Módulo realizou para as suas participações nas 3 feiras de arte acima assinaladas, foram muitas as obras da artista que ingressaram em colecções públicas e privadas no país e no estrangeiro. 


NUNO HENRIQUE - Revolver pedras e cobras

13 JAN - 11 FEV 2017

Nuno Henrique volta a expor no Módulo com o projecto intitulado Revolver pedras e cobras, quarta individual na galeria, e que vem complementar a pesquisa em curso, depois da participação com o projecto O livre uso dos elementos no Museu do Dinheiro, em Lisboa.

Revolver pedras e cobras

Os trabalhos agora apresentados resultam de um olhar atento e continuado [revolver também é meditar] de um desenho—The British Headquarters Map, Manhattan circa 1782. The National Archives of the UK, ref MR1/463—onde através de uma aguarela minuciosa são representados cursos de água que serpenteiam topografias variadas e desaguam em rios com margens ainda por regularizar. Os primeiros caminhos e edificações ocidentais são assinalados, das simples plantas rectangulares, às mais complexas fortificações em estrela.

O interesse inicial neste mapa deve-se à sua aparência enigmática, a representação de um território que já não existe: uma carta militar que fixou um território já colonizado mas ainda bastante distante da grelha actual. Num segundo momento, quando percebo ambiguidade nas diferentes representações que o compõe—as topografias, os fortes—e assim o potencial para se transformarem por meio do meu trabalho.

Os trabalhos acontecem na ligação dessas representações com elementos exteriores ao mapa—um objecto; um material; um texto, por exemplo a possibilidade de utilizar o vidro resulta numa série de esculturas que ao mesmo tempo que tomam as formas e desenho das referidas topografias, vão além dessas representações. Trabalhando contra e com a representação, libertando o sujeito representado. E se existe algum objectivo é o de apresentar as “pedras e cobras” com imagens difusas em vez de imagens precisas.

Um aspecto importante da minha prática e também deste grupo de trabalhos é o Desenho, é este que permite aceder às representações iniciais, e torna possível a combinação de diferentes elementos. De facto, o que estrutura conceptualmente o meu trabalho é o Desenho; é esse fazer, esse dar voltas [revolver], que tal como a tempestade, reconfigura, os elementos à sua passagem.

Revolving stones and snakes

The works now presented result from a careful and continued observation [revolving is also meditating] of one drawing—The British Headquarters Map, Manhattan circa 1782. The National Archives of the UK, ref MR1 / 463—represented through a meticulous watercolor, water streams wind around varied topographies, which flow through riverbanks still to be regularized. The first streets and buildings are traced from simple rectangular plans, to more complex star fortifications.

What initially caught my interest on the map was its enigmatic appearance, representing a territory that no longer exists: a military map that fixed a territory already colonized but very different from its current grid. In a second moment, it was the ambiguity I perceived in the different representations that compose it—the topographies, the forts—thus their potential to be transformed through my work.

The works unfold by connecting these representations with external elements to the map—an object; a material; a text. For example, the use of glass allows for the shapes and traces of the referred topographies to become something else or something more. This way, working with and against representations, sets free their subjects in a new series of sculptures. If there is any purpose to be fulfilled, it is to present the "stones and snakes" with diffuse images rather than accurate ones.

An important aspect of my practice and also of this group of works is Drawing. It allows me to approach the representations, enabling the combination of different elements. In fact, what conceptually structures my work is Drawing. Like in a tempest, it is this turning around [revolving] that reconfigures the elements during its course.

Nuno Henrique (Funchal 1982) licenciou-se em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes do Porto e em seguida participou num projecto individual no Ar.Co, em Lisboa. Concluído o mestrado no Pratt Institute de Nova Iorque, N.H. passa a viver nesta cidade. Além das participações em exposições no país, expõe individualmente nas galerias Twin, em Madrid, e Rooster, em Nova Iorque. Em 2012, recebe o 2º Prémio no Certamen Dibujo Contemporáneo Pilar y Andrés Centenera Jaraba, Madrid. Obras suas figuram em várias colecções nacionais e estrangeiras, de que destacaria as colecções de Fernando Figueiredo Ribeiro, Lisboa, MG, Alvito, e da Fundación Centenera Jaraba, Madrid.


ALEJANDRO BOTUBOL - 4 Elementos

26 NOV - 31 DEZ 2016

Alejandro Botubol é um jovem pintor espanhol oriundo de Cádiz (1979), que, depois de uma permanência em Nova Iorque, se fixou em Madrid, passando a trabalhar com a galeria Espacio Valverde. Quatro elementos é o título escolhido pelo pintor para a sua primeira exposição em Lisboa.

Sobre o seu trabalho escreveu Alejandro Botubol:

No time – No space

Una característica esencial en mi obra que no ha cambiado, es la exploración constante y perseverante de los fenómenos espaciales.

Actualmente, investigo sobre los elementos internos y simbólicos, en la pintura de todos los tiempos.

La ausencia, la gravedad, el tiempo, y el objeto rescatado; son en gran medida aspectos fundamentales de mi reciente trabajo.  Narro propuestas a partir de imágenes encontradas y experiencias vitales que nos hacen reflexionar acerca del término “realidad”.

Mi trabajo plantea una pintura infinita, con un deseo de búsqueda de la verdad a través de la contemplación de la propia vida.

El “Numen” es usado por los sociólogos para expresar la idea del poder mágico que hay en un objeto, especialmente cuando se refieren a ideas dentro de la tradición occidental.

También aquí, en mi última propuesta, trato de abarcar el sentido sagrado y de inmanencia que hay en todos los lugares y objetos elegidos; creando una tensión metafísica, con un matizado sentido del misticísmo.

Mas deixemos o seu galerista Jacobo Fitz-James Stuart falar do trabalho agora exposto:

“Alejandro Botubol insiste que lo que a él le interesa es el proceso, el propio hacer de la pintura.

Recordemos que los expresionistas abstractos concebían el lienzo como un combate en la arena (un lugar de sucesos más que un espacio en el que representar) y ciertamente frente a un arte puramente representativo que se basa en la ilusión y el artificio, a Botubol le gusta mostrar todos los trucos, presentar la pintura en toda su desnudez y pureza.

Pero aunque en las obras de Alejandro indudablemente se desarrolla un curioso e inesperado baile, Botubol mantiene de manera más o menos consciente una voluntad de representar, las obras no han perdido su condición de ventana.

¿Pero una ventana hacia que?

Tras un proceso de recolecta de impresiones de su vida cotidiana, objetos en el estudio, imágenes de otras obras de arte, recuerdos de paisajes y destellos, Botubol da rienda suelta a su instinto y  lo transforma todo en un lenguaje propio que se despliega mediante la elaboración de potentes focos de energía.

Paisajes, luces, geometrías que si bien siempre parecen representar una mirada, una narración, no paran de decirnos, una y otra vez “no olvides que soy pintura, soy pintura.”

CUATRO ELEMENTOS

En esta última exposición hay una nueva metodología que obliga a Botubol a ser extremadamente preciso, a concentrar sus impresiones de una manera certera.

El el caso de su obra en papel, el propio formato se resuelve en una obra contundente y esencial que parece casi un alfabeto, un manual para orientarse en el universo del artista.

Esta voluntad de precisión se advierte también en la serie de lienzos titulada teorías del cielo, en las que la misma composición esencial se mantiene pero varía la técnica pictórica y el color empleado, siguiendo la máxima de Heráclito de que nadie se baña dos veces en el mismo río.

El contraste entre la delicadeza del papel y la densidad del óleo, las variaciones de pincelada, las vibraciones de color y de forma hacen de cuatro elementos una exposición especialmente placentera.

Tengo además la tranquilidad de dejar a Alejandro en buenas manos, a galeria Módulo es sin duda una de las más exquisitas que he conocido y la curaduría de Mario es siempre impecable y poética.
Es además una oportunidad para volver a visitar Lisboa, una ciudad que siempre he amado y que cada vez que visito me sorprende de nuevo.

Esperamos que aprecien su continente (técnica) y su contenido (mirada) y que la disfruten tanto como nosotros.”

Obras de Alejandro Botubol figuram em várias colecções institucionais, tais como, Fundación Valentín de Madariaga, Sevilla, Fundación Banco Sabadell, Barcelona, Fundación Rodríguez Acosta, Granada, Colección Huestes del Cadí, Elda ,Alicante, Colección Focus Abengoa, Museo Histórico de San Fernando, Museo José Pérez Guerra, Fundación Talens. Barcelona. Fundación Vipren, Colección Mémora, Barcelona, Bodegas Navarro López, Valdepeñas.

PINTURA EN OBRAS  de  JAVIER MONTES

“Yo no escribo historias, escribo escritura”: lo decía Dashiell Hammet y me vino a la cabeza mientras Alejandro Botubol me contaba esta exposición. Porque en su pintura hay una apariencia de narración que seduce al ojo para hacerle ver, luego, mucho más de lo que creía estar viendo. ¿Hay aquí puestas de sol, objetos flotantes, paisajes etéreos, toldos, colmenas, horizontes lejanos? ¿Hay historias?

Pues sí y no, yo creo que nos diría él, con guasa muy seria. Porque sus juegos y sus camuflajes, sus trampantojos y sus anamorfosis cumplen su función más alta contando una mentira que desentraña una verdad superior. ¿No es eso mismo, al final, la pintura? Botubol no pinta cosas, pinta pintura. Y da liebre por gato, y mucho más de lo que pedimos, al empujar la vieja mimesis de los griegos a una reflexión sobre el acto de pintar.

Qué pena que la frase de Hammet pierda su doble sentido al traducirse. I write writing: “escribo escritura”, sí, pero también “escribo escribiendo”. Botubol pinta pintando: improvisa, duda, quita y añade sobre la marcha, a partir de una idea cuidadosa y con mucho cuidado de dejarnos pistas para seguir sus huellas. Y el resultado de tanto oficio son unos trabajos delicados que conviene mirar despacio, porque se nos muestran en el equilibrio lábil y lleno de posibilidades de la pintura en pleno proceso: en obras.

Liebre por gato, vuelvo a decirlo: uno se espera cuadros formalistas y acabados, retratos de objetos, paisajes, y se encuentra con performances pintadas, con gestos que adivinamos y completamos al entrar en su juego. Dice Botubol entre bromas y veras, con la misma gracia aérea de su pintura, que es un “artista de la chapuza”. Y realmente lo es si entendemos por chapuza algo muy noble y a mucha honra: una capacidad para guiar sin imponer, para conseguir con aparente falta de esfuerzo (sólo aparente) lo más difícil para quien pinta: conservar sin matar lo inestable y lo maravilloso del acto mismo de la pintura. Quizá una versión actual, apropiada para nuestra sensibilidad volátil, de aquella Action Painting del viejo Rosenberg, que envejece mucho mejor que Greenberg cuando se trata de hablar de pintura.

En los cuadros de Botubol esperamos objetos e historias, y acabamos encontrando espacio y luz y tiempo. “Qué vanidad que la pintura nos admire por su parecido con cosas que no nos admiran en la realidad”: Pascal dijo con esa frase una de las grandes tonterías de la Historia de las Ideas. Pero una tontería interesante, como lo son a menudo las tonterías. Botubol juega con ella: no dirige la atención hacia el parecido de su pintura con su objeto, sino hacia el testimonio del objeto en el tiempo. Y nos extrañamos con él ante un mundo transido de tiempo, el más común y a la vez el más caro de los pigmentos que diluye con cuidado en su pintura.

CATARINA OSÓRIO DE CASTRO - DEVAGAR

21 OUT - 19 NOV 2016

Catarina Osório de Castro(1982, Lisboa) licenciou-se em Arquitectura, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, e, em 2011, concluiu o Curso Avançado de Fotografia do Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, realizando no ano seguinte o Projecto Individual em Fotografia, na mesma escola. Em 2014 frequenta o Curso de Projecto 3, no Atelier de Lisboa e, em 2015, participa em Construção de um Livro de Fotografia desta mesma escola.

No final da época passada figurou na colectiva Olhares Cruzados...Identidades Diversas desta Galeria.

Devagar é o nome escolhido para a sua primeira individual.A fotógrafa escreveu: Olha calmamente para as coisas e descobre como se forma a espuma no mar, com que rapidez se transforma outra vez em água, como reflete a luz do sol, de que cor é?

Amanhã encontra outro mar, como se forma a espuma nesse mar?

Sopra um vento de dia de tempestade e lembra-me o mar que naveguei outrora com o meu pai. Uma luz de outono e os barcos balanceando nas ondas brilhantes.

Pára esse momento e torna-o eternidade.

Na continuidade dos dias, observo atentamente o agora, os pequenos gestos das coisas, o sol como toca essas coisas, o desenho das formas, das sombras. A pele e a textura do corpo, da pedra, da madeira, da água, contam uma história, da passagem lenta do tempo num ciclo que amanhã se repete, mas nunca igual.

Pessoas íntimas e paisagens pessoais parecem tornar-se eternas, como se o tempo fosse outro.

O tempo é o que nós quisermos que as coisas sejam.

Observa como as formas se repetem na natureza e como o Homem as revê no seu corpo, nas coisas que cria e como nos transformamos constantemente, no fundo somos todos o mesmo.

Coleciono coisas próximas, momentos íntimos, aproprio-me do que não é meu e é para mim especial, com esses fragmentos construo uma realidade, a minha.

O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir.

O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade”.

Rainer Maria Rilke

Sobre o trabalho agora exposto escreveu Bruno Pelletier Sequeira:

Catarina Osório de Castro realiza no Módulo a sua primeira exposição individual com a apresentação do trabalho “Devagar”.

O conjunto de imagens fotográficas a cores, de formato quadrado e dimensões variáveis, revelam um processo de investigação visual no qual a autora desmonta o espaço físico, público e privado, nos seus elementos primordiais e nos seus detalhes significativos.

As formas geométricas elementares aparecem regularmente como que num esforço de organizar o espaço e de lhe conferir significado. Pressentimos em cada fotografia a suspensão do tempo e o movimento determinado de aproximação ao assunto, com o objectivo de capturar a sua essência.

A luz solar contrastante e as sombras profundas participam também nesse processo de simplificação de formas. Elementos tridimensionais restringem-se aos seus correspondentes bidimensionais: um maciço rochoso numa praia e um monumento funerário piramidal são convertidos em triângulos...

Os elementos vegetais também surgem recorrentemente. À possibilidade de observação de uma árvore inteira, a artista contrapõe imagens que resultam de um duplo processo de observação cirúrgico: troncos de árvore seccionados revelam as suas formas elementares e permitem uma observação do seu interior, como que a procurar a sua intimidade ao mesmo tempo que mostram, nos seus anéis, o tempo longo do seu crescimento.

A oscilação entre espaço público e privado é diminuída pela construção de uma intimidade nos lugares públicos. O gesto de aproximação aos assuntos e a observação demorada e meticulosa é o método preferido pela artista para a elaboração das suas fotografias.

Também ao nível das formas assistimos a uma oscilação entre pólos. A presença recorrente da água, em diversos contextos e com diferentes plasticidades, introduz uma dimensão de fluidez e acentua a dimensão melancólica e poética do trabalho: um édredon que escorre para o chão, o cabelo de uma amiga ou a superfície ondulante de uma mesa de pedra...

A montagem da exposição, com imagens de dimensões variáveis e colocadas a diferentes alturas, convidam o visitante a uma deambulação pelo espaço da galeria, com movimentos de maior ou menor aproximação às imagens. Estas deslocações, em certa medida, replicam o procedimento da fotógrafa no momento da criação das imagens.

Revelam também a sua surpresa perante o mundo que a rodeia e o encantamento que motiva a construção deste diário visual.


CARLOS ALBERTO CORREIA - 30 PEDRAS E 1 SOPRO

9 SET - 15 OUT 2016

30 Pedras e 1 Sopro é uma exposição que mostra os dois mais recentes trabalhos de Carlos Alberto Correia, em suportes que são novidade na sua prática artística: o vídeo e a escultura.

A apresentação do mundo tem sido tema central no trabalho de Correia. É a curiosidade de entender, estudar como nada é fechado e as coisas podem ser objecto de estudo com infinitas possibilidades de representações. Na observação das coisas que nos rodeiam, na vida, no Mundo, há coisas que são estanques e outras passageiras. Nesta exposição o artista apresenta dois distintos trabalhos mas que ambos remetem para objectos que têm uma história e que com a sua actualização contemporânea se fazem desagregar da sua essência original.

O primeira trabalho, que podemos observar já dentro da galeria, é o vídeo "Blowing the static continuously". Neste vídeo de 4 minutos e 55 segundos está presente uma vela artificial e o artista, que numa acção de soprar, tem a esperança que surja qualquer efeito no objecto em estudo. O mundo mudou e o que em tempos seria normal é agora estranho. Questiona-se o efeito causa-efeito, e questiona-se também a natureza dos objectos - numa perspectiva generalizada -, as suas leis internas ou mesmo a sua significação. Será isto uma vela? A beleza do objecto (vela de cera) a que estávamos habituados, é diferente (se é que não é inexistente): o calor dissipou-se tanto na temperatura como no sentido atmosférico. A luz é mais fria e o desafio ao fogo apagou-se. Entende-se um objecto que tem a pretensão de ser uma vela. A materialidade é outra, o plástico é a sua plasticidade e a beleza da cera, em todos os seus estados, é uma coisa do passado. Já não há sexualidade envolvida e o gesto da mão sobre a vela é sem sabor e por consequência indiferente. O cansaço de assoprar não nos leva a nada a não ser para nos contar que este objecto veio para ficar.

O segundo núcleo de trabalho, a série Fragments of Nature #2, é exposta na nave principal da galeria. São 30 pedras de amolar (ou de afiar), que diferentes de pedras de amolar naturais, são um composto de derivados, um processo de sinterização de pó de metal, pó de diamante, cerâmica, argila, silício, rochas compostas de minerais abrasivos, entre outros extractos. Por outras palavras, foi necessário extrair da natureza os elementos necessários com fim de produzir industrialmente estas pedras. É um processo cíclico, no sentido de que tudo começa na natureza (extracção dos materiais) passando pela transformação num objecto e acabando na escultura onde se dá a criação de uma ponte com o seu ponto de partida original estabelecendo uma relação visual à natureza e os seus inúmeros fragmentos. Surge o jogo de associações e procura da proveniência ou referente de cada fragmento, através de pormenores que nos lembra o deserto, o fundo do mar, planícies, costas marítimas, entre outros. Trata-se de uma imensidão que é reduzida à partícula imensurável para posteriormente dar lugar a um objecto físico que nos cabe na mão. E como a função, o poder e representação se tornam numa premissa na mão e vontade do ser humano. 

Por ocasião da exposição, será ainda publicado uma pequena publicação com texto de João Silvério.


Olhares Cruzados / Identidades Diversas

01 JUN - 31 JUL

Olhares Cruzados / Identidades Diversas reune 14 artistas de entre alguns já familiares no Módulo a que se somam três que iniciam agora uma colaboração com a galeria. O Módulo inaugura pela ocasião um pequeno espaço virado ao exterior e que completa a fachada do prédio onde está inserido. Espaço este que vai dar maior visibilidade exterior à galeria, como constituirá um pequeno espaço complementar ao principal e/ou um espaço de projecto para novos artistas.

As diferentes propostas mostradas nesta exposição distribuem-se pela pintura, desenho, instalação, fotografia e cerâmica.

Catorze artistas que vão por certo interessá-lo e diria mesmo surpreendê-lo como aconteceu com alguns visitantes do Arco que passaram pela galeria nessa altura e actualizaram a informação anterior sobre obras de artistas mais recentes. 

Na pintura será exposta uma tela muito recente e inédita de Ana Mata, que continua a linguagem pictórica iniciada na sua última individual, agora mais um passo na valorização da questão lumínica na pintura; Pedro Calhau apresenta um conjunto de guaches reveladores de uma tendência mais  abstractizante quando comparados com o trabalho anterior; Rui Algarvio, depois da sua recente individual na galeria, mostra um grupo de pinturas que afirmam o diálogo que este pintor tem mantido com a paisagem e a prática pictórica; Nuno Gil expõe um trabalho em papel de dimensões maiores que o habitual, composto por colagens fixadas por agrafes a que o artista já nos habituou; José Miguel Gervásio levanta aqui a ponta do véu do seu trabalho figurativo em pintura, que se iniciou com os papéis já mostrados; Vasco Monteiro expõe um grupo de papéis que complementam as pinturas a óleo recentemente mostradas; Nuno Gonçalves é um ainda muito jovem artista que acabou de se juntar ao “stable” da galeria e que, embora quase desconhecido do meio, despertou um interesse considerável junto de alguns coleccionadores nacionais e estrangeiros.

Na fotografia, dois nomes já conhecidos dos habituais frequentadores do Módulo, que são os casos de Brígida Mendes e Tito Mouraz. Na  ocasião será apresentado a publicação Casa das Sete Senhoras, edição que reporta ao portfólio mais recente do fotógrafo e que na mesma altura está exposto em Arles. Dois nomes  novos juntam-se a estes, Catarina Osório de Castro e José António Quintanilha.

Marco Moreira, que já nos habituou aos lápis Viarco e à grafite , apresenta agora algumas pequenas esculturas e um grupo de desenhos neste último material.

Pollyanna Freire apresenta algumas esculturas na linha das que estiveram no Prémio Jovens Artistas EDP.

A cerâmica que tem sido um material explorado por muitos artistas recentes, também no caso de Vasco Futscher, que regressa com um conjunto de novas esculturas valorizando a plasticidade do material e introduzindo agora algum humor.


António Carrapato - Encantamento

28 MAI - 29 JUN

António Carrapato foi durante bastante tempo fotojornalista do jornal Público, mas em paralelo foi desenvolvendo um trabalho de fotografia criativa. Conhecido num grupo mais restrito de pessoas do meio fotográfico, tem agora a sua primeira exposição antológica nesta galeria cobrindo um período desde que vai de 1985 a 2015, começando no preto e branco e prolongando-se pela cor.

A exposição tem a curadoria de José Soudo, que realizou um trabalho verdadeiramente notável na selecção e montagem das 103 fotografias que constituem a exposição. 

Encantamento é o título dado pelo curador a esta seleção do trabalho fotográfico de António Carrapato, mas passemos ao texto escrito por José Soudo para a ocasião: 

Vilém Flusser diz-nos nos seus tratados filosóficos sobre técnica e arte, que as imagens são superfícies meramente bidimensionais onde se pretende fazer a representação das dimensões espácio-temporais da realidade.

Também nos acrescenta que é a nossa imaginação específica e abstrata, que lhes confere a ilusão de ligação á realidade, ao fazermos a leitura das mesmas, que tanto pode ser superficial como profunda.

Também nos lembra, que é ao fazermos a sua análise mais aprofundada, por varrimento, que lhes incorporamos impulsos nossos e também impulsos provindos do executante…

É também nos diz que é isso que nos remete à leitura interpretativa e conotativa, ou seja, que o que cada um de nós vê a partir das mesmas imagens, pode não ser interpretado da mesma maneira por pessoas diferentes.

Tudo isto são evidências.

Vem tudo isto a propósito dos trabalhos, deste trabalho fotográfico em concreto, do António Carrapato, amigo de longa data, com quem me cruzo há mais de 25 anos, pois sempre que os “leio”, sou remetido para um estado de “ENCANTAMENTO”.

Estas séries, que nos são dadas a ver neste espaço da Galeria Módulo, carregadas de pequenas e enormes subtilezas, assim como de abordagens tão delicadas e intimistas, têm (para mim), o condão de nos evidenciar os poderes ocultos deste fotógrafo, qual mágico, para nos seduzir e inebriar, provocando sensações de embriaguez e felicidade, apenas porque lhe olhamos as imagens.

Percam o vosso tempo com elas, pois quem sabe se não é isto que o velho Flusser nos quer dizer quando afirma que …”as fotografias não têm nada de mágico porque são técnica pura, no entanto são imagéticas, porque vivem de magias...

António Carrapato, nascido em Reguengos de Monsaraz no ano de 1966, começa a sua carreira nos anos 90, a fotografar para os principais jornais portugueses.

Em paralelo desenvolve um trabalho de autor, em que constrói uma temporalidade de acasos significativos com um humor muito específico.

É no território rural do Alentejo, mas também em contextos urbanos internacionais, que utiliza a sua capacidade de observação para criar um universo visual onde a relação entre o homem e a sua envolvente revelam subtis ironias ou absurdas coincidências.

António Carrapato estou fotografia no Ar.Co e apresenta um curriculum de exposições colectivas apreciável de que poderemos destacar Aldeias Gémeas, Museu da Aldeia da Luz (2013), Riso, Fundação EDP (2012), Nós, Museu de Évora (2009). Recentemente figurou na exposição intitulada Grupo de Évora com curadoria de Alexandre Pomar ,que se iniciou na Pequena Galeria em Lisboa e depois circulou por Sines (Centro Cultura Emérito Nunes) e Évora (Palácio D.Manuel) durante o ano de 2013.

A obra fotográfica de António Carrapato encontra-se em várias publicações como Planeta Ovibeja(2008, Arte na Fundação Luso-Brasileira(2007) e Extensão do Olhar, Uma antologia visual da fotografia portuguesa contemporânea (2005) da Fundação PLMJ.


Vasco Monteiro - pinturas decentes

16 ABR - 21 MAI 2016

Última exposição de um ciclo dedicado à pintura iniciado em final do ano passado. O destaque da prática pictórica notou-se como tendência que tem vindo a dominar a época, desde 2015, em diferentes cidades como Nova Iorque, Paris ou Londres

Última exposição de um ciclo dedicado à pintura iniciado em final do ano passado. O destaque da prática pictórica notou-se como tendência que tem vindo a dominar a época, desde 2015, em diferentes cidades como Nova Iorque, Paris ou Londres, por ex., e que, a partir de setembro passado, se tornou preponderante nestas cidades quando consideramos as programações institucionais ou de galerias. Tal facto é recorrente neste contínuo rolar das tendências que, em diferentes momentos, se tornam dominantes.

Apesar de algumas participações em colectivas, data de 2011 a última exposição individual de Vasco Monteiro nesta galeria. Este grupo de pinturas a óleo sobre tela, designadas ironicamente por pinturas decentes, de que abaixo se dá a razão,  confirma uma trajectória muito pessoal onde as diversas composições oscilam entre uma figuração e uma abstracção, mas em todas elas, tal como já acontecia anteriormente, denota-se uma ironia subjacente às várias situações representadas. Se nos trabalhos anteriores prevaleciam referências a experiências vividas pelo pintor ou provenientes de factos veiculados pelos média, agora deparamo-nos com pinturas de raíz mais abstracta. 

Mas deixemos falar Vasco Monteiro sobre as obras agora expostas:  

Roland Barthes disse que fazer arte significa considerar o desejo do impossível ser razoável. A primeira vez que falei destas minhas “ pinturas recentes”, um amigo meu entendeu “pinturas decentes”, que logo adoptei como título por me parecer funcionar pela sua ironia, que juntamente com o humor a estranheza e o insólito, são o fio condutor do meu trabalho. A imagem e o processo de descobrir como lá chegar através da pintura a óleo é o que me interessa. Na sua maioria estes trabalhos surgem de formas básicas e elementares, como o circulo e o quadrado, geradores de energia e tensão. O primeiro como espaço aberto, orgânico e dinâmico, o segundo como espaço fechado e tenso, que intuitivamente se transformam (através de um processo de desconstrucção construtiva) numa impossibilidade razoável. Nota: um dos sentidos do adjectivo “decente” é satisfatório que tem por sinónimo “razoável”

Vasco Monteiro cursou o Ar.Co tendo-se destacado numa exposição no Museu da Cidade de Lisboa, em 2006. Recentemente figurou na exposição de obras da colecção Mg, Alvito, intitulada Consequência do Olhar. Obras suas figuram em várias colecções particulares. Para mais informação poderá consultar o artigo publicado na revista L+Arte nº28 de 2006, O enterro prematuro, da autoria de Pedro Faro.


ANA MATA - Pintura

5 MAR - 9 ABR 2016

Esta exposição insere-se num ciclo de exposições de pintura que se iniciou no final do ano passado. O destaque da prática pictórica notou-se como tendência que tem vindo a dominar a época, desde 2015, em diferentes cidades como Nova Iorque, Paris ou Londres, por ex., e que, a partir de setembro passado, se tornou preponderante nestas cidades quando consideramos as programações institucionais ou de galerias. Tal facto é recorrente neste contínuo rolar da roda das tendências que, em diferentes momentos, se tornam dominantes.

Ausente do circuito público desde 2010 por questões curriculares, Ana Mata volta ao Módulo com uma nova série de pinturas realizadas durante o período do doutoramento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, agora finalmente concluído.

Ana Mata parte sempre da fotografia, observando imagens captadas por uma máquina do séc. XIX. Esta regista tomadas de vista que conservam as imperfeições de um aparelho do tempo. Tal facto é fundamental para a artista, pois permite-lhe distanciar-se da situação real fotografada e, assim, valorar o processo pictórico. Uma grande parte das imagens colhidas poderão ser apreciadas numa edição especial de um livro de artista (20 ex.), contendo cada um deles uma transparência diferente, um diapositivo original, de uma das imagens.

Como Ana Mata afirma: "A procura do mesmo na diferença, o paradoxo de um corpo deitado e verticalizado pela pintura, são propostas manifestas numa pintura fundada num modo de olhar, assumidamente, a fotografia. Um diário-gráfico fotográfico revela as imagens que inspiraram as pinturas. Estas mostram o desejo de retomarpintando o real, a experiência intensa de um lugar e de um gesto de escuta e de captura."

Ana Mata (Setúbal, 1980) tem já uma presença apreciável em exposições colectivas, como no  Salão Europeu de Jovens Criadores 2004, Montrouge (França), Sant Cugat (Espanha) e Amarante(2002), Identidade como ficção: Narrativas contemporâneas, multiculturalismo e diversidade, Círculo de Artes Plásticas, Coimbra, 3º Prémio de Pintura Ariane Rothschild, Lisboa (2007) e ResPublica, 1910 e 2010 face a face – 

Cur. Helena Freitas e Leonor Nazaré, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2010).


RUI ALGARVIO - GRASS BETWEEN YOUR TOES FEELS NICE

7 JAN 2016 - 20 FEV 2016

Rui Algarvio (1973, Barreiro) apresenta-se pela primeira vez no Módulo com uma série de 50 pinturas sobre papel, que serão mostradas em dois tempos sucessivos. 

Durante os últimos anos, a paisagem tem sido o lei motiv na obra deste pintor, mas o tema não reporta a qualquer lugar real, mas, pelo contrário, Rui Algarvio serve-se do tema para explorar questões relacionadas com o processo pictórico. 

Quer no óleo sobre tela, aqui não  mostrado, quer no suporte papel o artista recorre a diferentes materiais e técnicas na composição do trabalho final. Em todos estes trabalhos a paisagem aparece-nos de uma forma mais ou menos abstractizada, como elemento estruturante da composição final.

       

Grass between your toes feels nice é o título da exposição destes 50 desenhos mostrados sequencialmente vinte e cinco de cada vez.

Sobre este conjunto escreveu Rui Algarvio:

GRASS BETWEEN YOUR TOES FEELS NICE

          Perto de Lisboa existe um grupo de pequenas povoações que têm nomes curiosos: Pai Joanes, A-Dos-Cãos e Bolores. Estão relativamente próximas umas das outras. Para além dos seus nomes, aquilo que também têm em comum são as suas peculiares características enquanto pequenas aldeias na zona saloia. A sua ruralidade vai-se desvanecendo com as construções mais recentes. Moradias e vivendas nascem dentro de terrenos agrícolas, criando um novo contexto percetivo. Torres elétricas gigantes atravessam o vale. Parques eólicos transfiguram os montes. Zonas de pastoreio acolhem vacas, borregos, cabras, galinhas e até caçadores. Tudo isto mistura-se com pequenos édenes, difíceis de encontrar. Para lá chegar, tanto lixo, tanto entulho. 

Como seriam as pinturas de Silva Porto, Artur Loureiro, José Malhoa ou Marques de Oliveira se esses pintores presenciassem estes novos cenários? 

“A more satisfactory alternative is to think of landscape as environment.” 

Esta afirmação de Arnold Berleant propõe uma nova forma de nos confrontarmos com a paisagem. Nesta relação entre Homem e Natureza, importa enfatizar o desespero provocado pela constatação de uma nova paisagem, tão preenchida pela mão do Homem. 

Resta-nos, pois, descalçarmos os sapatos, tirar as meias, enfiar os dedos dos pés na relva e apreciar a natureza possível, num qualquer banco de jardim."

Rui Algarvio tem já um percurso considerável de exposições individuais e colectivas, quer em Portugal como no estrangeiro, das recentes colectivas destacaria  Everywhere is the same sky (cur. Raquel Guerra), Uma perspectiva de paisagem na colecção Norlinda e José Lima, Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, Castelo Branco e Consequência do Olhar, paisagens na colecção MG (comissariada por Rui Algarvio), Espaço Adães Bermudes, Alvito. Individualmente referiria, Rui Algarvio-Paisajes, MAG Mustanh Art Gallery, Elche, Espanhae A Auto-Estrada para a Ilha, Sala do Veado, Museu de História Natural, Lisboa, ambas em 2012.


SUPERNOVA: TRÊS GRELHAS, UM ANIMAL E DOIS VEGETAIS

4 DEZ 2015 - 2 JAN 2016

"A thing of beauty is a joy for ever: Its loveliness increases, it will never pass into nothingness..."

Endymion  /John Keats

Nuno Gil (1983, Lisboa) apresenta-se com um conjunto de pinturas sobre tela e sobre papel, intitulado Supernova: três grelhas, um animal e dois vegetais.

Nove desta série de papéis da exposição fizeram parte da selecção com que o Módulo se fez representar no recente encontro sobre pintura, em Cáceres, intitulado Gabinete de Pintura-Presentar Batalla, com a curadoria do crítico espanhol Chema de Francisco.

Relembro que Nuno Gil foi o único artista português, seleccionado por um júri internacional de uma lista de mais de 1.400 pintores de todo o mundo, para a exposição e publicação (Thames & Hudson) 100 Painters of Tomorrow

A nova série intitulada Supernova retoma algumas questões essenciais paraNuno Gil que dizem sobretudo respeito à diferença fundamental que este estabelece entre a pintura e o desenho.

Uma das linhas principais que percorre todo o seu trabalho diz ainda respeito a uma certa vontade do informe. Perante uma clara impossibilidade de dissolução (ou superação) dos limites da própria forma, o seu esforço tem tomado cada vez mais o sentido radicalmente oposto, isto é, o de entender esses limites como cada vez mais precisos e inequívocos.

A existir um lugar onde o informe - embora não se realizando de facto - se pode experimentar, ele situar-se-á precisamente nesse espaço que distingue qualquer coisa de outra. Uma vontade ainda de repetição encontra aqui uma lógica comum, dizendo por sua vez respeito a tudo aquilo que diferencia uma coisa de todas as que lhe são idênticas. A consequência desta repetição é o excesso, mas para além deste, o que de mais comum existe entre todo o seu trabalho e o barroco enquanto categoria é um tipo de inversão que opera no sentido de destapar tudo aquilo que aparentemente e de forma sistemática se esforça por encobrir. 

Esta é segunda individual do artista no Módulo, apesar das presenças continuadas em Espanha por ocasião das participações da galeria nas feiras de arte, Summa e Just. A sua obra foi seleccionada para IV Certamen Dibujo Contemporáneo Pilar y Andrés Centenera Jaraba, Me, Myself and Y (2013), em Madrid, figurando no respectivo catálogo. Também fez parte da exposição El papel del dibujo: El mundo es mi imaginación na Galeria Angeles Baños de Badajoz (2014). 

Nuno Gil expõe individualmente, em maio, uma nova série de trabalhos na Galeria Espaço Valverde, em Madrid.


PEDRO CALHAU - 12 MONTANHAS

Pedro Calhau (1983, Évora) é um novo artista no Módulo, mas o seu nome tem aparecido em algumas colectivas e também individuais, como a recente exposição Ukulele no Museu Geológico de Lisboa, ou em 2013, a exposição Loquitur latine ?em Évora, no Palácio D. Manuel. 

A exposição no Módulo, intitulada 12 montanhas, reúne um conjunto de desenhos executados a acrílico sobre papel onde estão representadas paisagens que diríamos inabitadas, caso não fosse em todas elas encontrarmos uma figura-totem que nega o isolamento que nos transmitem estes lugares. 

Sobre este trabalho diz o artista:

Falar do que me leva a fazer objectos (desenhos, pinturas) é sempre ingrato e redutor, na medida em que é o silêncio, o grande cúmplice da pratica artística. 

O grande denominador deste processo é o diário gráfico.

Desde os primeiros tempos sempre existiu esse espaço de reflexão na minha abordagem ao desenho ou à pintura. Com o passar do tempo, deixou gradualmente de ser um depositário de ideias e passou a ser uma antecâmara, uma sala de ensaios, um sitio onde se definem as escalas, as apropriações cromáticas, aquilo que se rouba a quem se admira.

Nos últimos anos, esse objecto tornou-se assim, um aliado ainda mais precioso, para mitigar o erro, deixar passar o extemporâneo, deixar vir ao de cima a água cristalina que chega aturdida pela lama. Certamente ajudou-me a escolher, a deliberar de uma forma mais consciente menos romântica e implosiva.

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Ao longo dos últimos dois anos influenciados por um certo tipo de pensamento ligado aos textos clássicos (Bento de Espinosa, Aristóteles entre outros) comecei a desenhar a partir de um determinado problema que me propunha. Para o efeito, considero dois factores (duas imagens diferentes) que pelo seu cruzamento darão lugar a um novo desenho. O desenho é assim, o resultado desse problema sem ser contudo a soma perfeita dessa união. Depois de associar aves e artefactos ancestrais, vestuário e paisagens. Surgiu como a primeira ideia desta serie, juntar montanhas com um objecto que faria de personagem nessa paisagem. 

Para a serie 12 montanhas foram feitos 15 desenhos que vos convido a conhecer. 

Ao longo dos últimos dois anos influenciados por um certo tipo de pensamento ligado aos textos clássicos (Bento de Espinosa, Aristóteles entre outros) comecei a desenhar a partir de um determinado problema que me propunha. perfeita dessa união. Depois de associar aves e artefactos ancestrais, vestuário e paisagens. Surgiu como a primeira ideia desta série, juntar montanhas com um objecto que faria de personagem nessa paisagem. 

Para a série 12 montanhas foram feitos 15 desenhos que vos convido a conhecer. 

PEDRO CALHAU (n.1983) Vive e trabalha entre Évora e Lisboa. 2001-2006 Artes Plásticas  Pintura. Univ Évora, Évora 2006-2010 Ar.Co, Lisboa. Curso Avançado Artes Plásticas. Projecto Individual. 2010-2012 

EXPOSIÇÕES COLECTIVAS (selecção)  2014 Coterie ( Ana Morgadinho, Ângela Dias, Catarina Osório Castro, José António Quintanilha, Nuno Barroso, Ricardo Pires, Maria João Brito, Luís Luz) 2014 O caminho estreito para o sul profundo (Ana Morgadinho, Ângela Dias, Ricardo Pires, Vasco Futscher) Espaço AZ, Lisboa 2014, O Levantamento da Peste , Igreja de S. Vicente (vários locais), Évora  2013 (com Ana Morgadinho Angela Dias, Ricardo Pires José Quintanilha e Vasco Futscher ), Lisboa  

INDIVIDUAIS:   2015 Ukulele, Museu Geológico, Lisboa; 2013 Loquitur latine? Pintura. Palácio D. Manuel, Évora 2004 Adverbio, Associação Cultural Alçude, Évora. O artista expõe o seu trabalho desde 2000 estando representado  na colecção do Ar.Co bem como em outras colecções particulares.


MARCO MOREIRA - GIRANDO EM TORNO DOS MESMOS EIXOS VEZES SEM FIM

25 SET - 31 OCT 2015

Marco Moreira (1978, Favaios) apresenta-se agora no Módulo depois da presença na exposição colectiva Primeira Página em maio do ano passado. Licenciado e Mestrando em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, Marco Moreira tem desenvolvido um trabalho no domínio do desenho, tanto a nível da bidimensionalidade, como em termos instalativos. Depois da sua presença na colectiva desta galeria, o artista figurou na exposição " El papel del dibujo VI: El mundo es mi imaginación", na Galeria Ángeles Baños (2014), em Badajoz e, recentemente, a título individual, na exposição, Delineando...", Centro de Arte de S.João da Madeira e na colectiva "A viagem ao princípio do mundo" na Bienal da Maia 2015.

Sobre a exposição actual, intitulada, Girando em torno dos mesmos eixos vezes sem fim, refere Marco Moreira:

No projecto de trabalho que venho a desenvolver parto sobretudo de uma reflexão sobre a prática do desenho onde procuro explorar os seus limites e as suas fronteiras. Existindo entre o bidimensional e o tridimensional, estabeleço uma relação entre representação e real, recontextualizando objectos e ideias com a finalidade de materializar processos criativos. Recorrendo desta forma a um trabalho sintético, mas ao mesmo tempo envolvente, pretendo assim que a obra tenha a sua existência numa dimensão poética. Neste conjunto de trabalhos que agora apresento, exploro o espaço da galeria, procurando uma relação entre representação e real e também uma relação entre artista, obra e fruidor, relação esta que defina e permita reflectir sobre a condição da inscrição do lugar. Desta forma, faço uso de simples lápis de grafite que altero e manipulo, procurando lidar com o que chamo síntese mecânica, acentuando a condição da ferramenta inerente aos lápis utilizados. Condição esta que permite a mim como a qualquer visitante experienciar a obra tanto táctil como visualmente, activando-a através da acção de desenhar. 


BRÍGIDA MENDES - PAISAGENS INTERIORES

19 JUN - 25 JUL 2015

Depois de uma ausência de cerca de 5 anos, Brígida Mendes (Tomar 1977) regressa com um novo conjunto de trabalhos fotográficos intitulados Paisagens InterioresBrígida Mendes pratica uma fotografia encenada captada analogicamente e impressa a gelatina e prata sobre papel de fibra. 

Muitos devem estar lembrados das séries anteriores onde surgia a mãe da artista em composições encenadas em que o observador era obrigado a uma leitura atenta da situação fotografada, pois em todas as imagens a primeira leitura, despertava uma estranheza que exigia que o observador voltasse à imagem e tentasse apreender a razão dessa estranheza. O exercício da percepção era a base de todas estas fotografias. 

Duas das séries a preto e branco foram mostradas aqui no Módulo, sendo a segunda resultado do mestrado que a artista realizou no Royal College of Art de Londres, que lhe grangeou o Photographer’s Gallery Graduate Award. Seguidamente realizou uma residência de dois anos na prestigiada Rijksakademie van beeldende Kunsten de Amesterdão, trabalho, que o Módulo teve ocasião de mostrar em 2010, desta vez a cor e parte em caixas de luz, onde a imagem se modificava com a aproximação do observador. 

Desde aí Brígida Mendes fixou residência nesta cidade holandesa e a série,Paisagens interiores, marca um regresso ao preto e branco, mantendo-se a natureza analógica.

O prémio da Photographer´s Gallery deu-lhe um reconhecimento na capital londrina, de que resultaram várias exposições, delas citaria a mais importante, realizada em Itália, In Our World. New Photography in Britain (2006), comissariada por Filippo Maggia, na Galleria Civica di Modena, onde Brígida aparece já como artista inglesa. Desta exposição editou-se um importante catálogo.

Entretanto Brígida Mendes participou ainda nas exposições, 50 Anos de Arte Portuguesa, na Fundação C. Gulbenkian (2007), comissariada por Leonor Nazaré,Lá fora (2009) e Riso (2012), comissariadas por João Pinharanda, na Fundação EDP e ainda Au féminin, Women Photographing Women 1849-2009, comissariada por Jorge Calado, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian de Paris. 

Paisagens interiores é o título de um projeto de fotografia realizada em  estúdio e, onde se recorreu à escultura e à instalação, com o intuito de criar vários objetos que, simulam as paisagens representadas em cada fotografia. 
Nestas obras é examinada a natureza sedutora da fotografia, a imagem e a sua relação com a representação do mundo, bem como o impacto da percepção visual na construção de significado. Pretende-se ainda explorar os conceitos de paisagem natural e paisagem cultural, incorporando o humor, o poético e o absurdo para abordar temas determinados pelo contexto da realidade social que se questiona e analisa, como: poder, moralidade, gosto, morte, etc


MARIANA BARROTE - NUNTIOS NOCTURNO

15 MAI - 14 JUN 2015

Mariana Barrote é uma pintora oriunda do norte do país e que aqui se apresenta pela primeira vez na galeria, como também em Lisboa. A exposição insere-se num ciclo de exposições a decorrer durante este ano e no próximo, em que vários convidados da galeria são os responsáveis curatoriais de cada exposição. João Silvério inaugurou o ciclo, cabe agora ao colecionador lisboeta, Dr. Gonçalo Lima a nova exposição deste ciclo. O Dr. Gonçalo Lima, quando convidado a apresentar um projeto expositivo, optou por escolher uma individual de pintura de uma artista nunca anteriormente apresentada na cidade apesar de Mariana Barrote ter já aparecido em exposições anteriores no norte do país, nomeadamente no Porto.

Mariana Barrote (1986) diplomou-se em pintura pela Faculdade de Belas Artes do Porto e no seu curriculum figuram já algumas individuais e colectivas. Em 2010 recebeu o 1o Prémio de Pintura na exposição Jovens Criadores, em Aveiro.

Eduardo Paz Barroso escreveu relativamente à individual que a pintora apresentou no verão de 2013, em Matosinhos, "Neste momento em que por coincidência se inicia um tímido verão, é altura de festas populares. Chegam nómadas os feirantes que montam " 0 poço da morte", essa atração de todas as feiras que François Truffaut genialmente perpetua em Les Quatre Cents Coups (1959) para selar a tontura de uma infância que nos faz andar com a cabeça à roda, como as Fábulas de La Fontaine, ou como os personagens que a Mariana traz agora ao nosso convívio."

Nestas diversas pinturas a acrílico sobre papel, algumas de dimensões apreciáveis, surgem encenações povoadas por personagens de um mundo meio surreal que convidam o observador a construir histórias possíveis. A artista intui o mundo por meio de associações e desbravamentos de conceitos, como modo de se agregar à vida. A pintura não se distancia dessa mesma constante, um reflexo de mistérios, anseios e hipóteses. O encanto pela vibração da cor é basilar a todas as camadas sobrepostas de tinta que compõem, em essência, uma pintura imanente em simbolismo. Assim, essa construção, em acrílico sobre papel, é encarada como o princípio capaz para a contemplação de jogos irónicos, safardanices de primeira, divagações entre símbolos ritualísticos.

Nuntios Nocturno, título dado à série exposta e também à exposição, é prolífero em representações dispostas a responder ao olhar daquele que observa. Isso explorado através da composição, que procura traçar um percurso até algum pormenor fulcral na trama que se desenrola em cada papel. Também explorado pela pintura da postura de figuras humanas erguidas entre tensões mútuas, criadas para nos observarem frontalmente, por vezes de soslaio. Um jogo pictórico quiçá assente numa linguagem iminentemente barroca, com a qual a ocupação total do espaço e escala destas pinturas se identifica. Contudo, foi entre assimilações românticas que brotou esta exploração imagética com alusões à transitoriedade da vida, onde a Lua, a bela operadora de imagens, surge em destaque. Assim, não mais regressa a vanitas, mas incorpora-a em atmosferas nocturnas, através do trabalhar da mancha com gestualidade. Assim integradas, todas as pinturas que compõem este Nuntios Nocturno, são uma só mensagem, diferentemente repetida, construindo com o que observa, enigmas a desvendar. 


VIRGÍLIO FERREIRA - Ser e Devir

10 ABR - 5 MAI 2015

Virgílio Ferreira, na sua segunda individual no Módulo, apresenta a última série fotográfica intitulada Ser e Devir. Série que termina aqui um largo circuito nacional e internacional. Na mesma altura será apresentada um edição especial, numerada e assinada, de um outro projecto inédito. 

Virgílio Ferreira é o único fotógrafo português convidado pela Trienal de Hamburgo para apresentar uma instalação site specific, que ficará situada em frente da Câmara de Hamburgo, lugar onde terá a inauguração desse grande acontecimento fotográfico.

Este projecto foi desenvolvido durante o ano 2013, e está integrado no prémio Europeu 1000 Words Award, organizado pela 1000 Words Photography (UK), em 

colaboração com a Cobertura Photo (Espanha), Atelier Visu (França), e em associação com a Magnum Photos. 

Becoming / Devir é um conceito que vem da filosofia que considera a mudança em si mesmo como processo e passagem de um estado para outro. Refere-se á transformação e mudanças do modo de ser, o acontecer e o ir sendo. A mudança é inevitável e uma parte essencial do mundo.

Neste projecto sobre a diáspora Portuguesa, procurei representar ideias de identidade híbrida, explorando conceitos do “Terceiro Espaço”, do “Velho e do Novo”, a polaridade de viver entre culturas, idiomas, paisagens e fronteiras estrangeiras. Segundo alguns académicos o “Terceiro Espaço” é uma interacção e articulação 

com duas ou mais línguas e culturas. O “Velho e o Novo” são estados de ser, e de negociações entre o social, nacionalidade, espaços geográficos e linguísticos. 

Os emigrantes são Seres em deslocação neste novo contexto sócio e geocultural, e estão localizados no território entre o "Velho” que faz parte deles (memórias, língua, cultura, território), e do “Novo” (o estrangeiro, que se está tornando parte deles). Esses estados de velho e novo, ocorrem no mesmo espaço e ao mesmo tempo. Os emigrantes são convidados a transformar a sua identidade, renegociando-a de acordo com situações novas e em constante mudança. O meu objectivo foi explorar fotograficamente estas intersecções complexas, acentuando o que identifico como sentimentos e ideias de diferença ou estranheza, a memória, a identidade e mobilidade.  


FREDERICO RAMIRES - Shallow

6 MAR - 11 ABR 2015

Frederico Ramires é um nome novo no Módulo e tem agora a sua primeira individual na galeria. Shallow é o título dado a este conjunto de pinturas, de pequenos formatos e executadas a óleo s/ madeira. Sobre o trabalho deixo aqui um excerto do texto escrito pelo pintor, onde ele refere várias questões que envolvem o seu trabalho:

Questionar o papel da pintura e do desenho nos dias de hoje… Não será o mesmo dos dias de ontem? Há nos dias de hoje uma nova tendência, uma obsessiva procura pela inovação. Esta procura retira de foco o que realmente é importante num trabalho artístico. Existem já no mundo demasiados objectos interessantes, não preciso nem pretendo criar mais. Existem também no mundo da arte, nomeadamente na pintura, suficientes maneiras de trabalhar um assunto e, assim, também não preciso nem pretendo inventar mais. 

Deste modo ponho de parte duas preocupações que servem de alicerce e que sustentam a pintura desde que ela existe, o que pintar e como pintar. 

Resta-me o porquê? Existem também no mundo pinturas suficientes, e sei também que o mundo não necessita das minhas. Para além do prazer, a pintura e o desenho ajudam-me a questionar e a perceber o mundo e, inevitavelmente, a brincar com ele. Dito isto, penso que seja relativamente fácil entender o meu processo de trabalho. 

Vejo a minha pintura como uma pesquisa séria. Trabalho sobre e a partir do que já existe, do que é visível e concreto, com uma forte tendência para o vulgar, o óbvio e o descabido. Esta tendência é fortalecida pela ideia que a imagem nunca foi tão consumida, e por isso tornou-se gasta e cansativa. Usar o vulgar como suporte temático exclui a hipótese de querer dizer algo mais do que aquilo que já foi dito anteriormente, permitindo uma leitura mais superficial, no campo do que é visível.


TITO MOURAZ - Casa das Sete Senhoras

10 FEV - 21 FEV 2015

Tito Mouraz, na sua terceira individual no Módulo, apresenta a última série fotográfica intitulada Casa das Sete Senhoras. Série que tem tido uma grande cobertura dos médias fotográficos internacionais e convites especiais de júris de vários Festivais Internacionais de Fotografia. 

Depois da muito comentada série anterior Open Space Office, de que se editou uma livro, esta série volta ao ambiente familiar bem conhecido do fotógrafo e que em parte foi tratado na série Lapa do Lobo, aqui a cor e, nesta mais recente, a preto e branco. 

Sobre esta série fotográfica diz o autor:

Ainda se diz por aqui que a casa está assombrada. Na casa do Casal viviam sete senhoras, todas irmãs solteiras. Uma era bruxa. Em noites de lua cheia, as senhoras voariam nas suas vestes brancas da varanda para os ramos frondosos do castanheiro, sobranceiro à rua. Daí seduziriam os homens que passassem.

Na Casa das Sete Senhoras, conversar, saber como era antes de mim, ouvir e imaginar, foi tanto importante como o ato de fotografar.

Comecei por fazer alguns retratos de pessoas. Interessara-me porque sempre viveram aqui e estão ligadas à terra como as árvores. Falam do tempo, das suas recordações, das perdas ... muitas já vestem de preto.

Esta série dá conta de um persistente regresso ao mesmo lugar,  para prescrutar as suas diferenças (a lenta desativação do maneio agrícola, a transformação progressiva do território, o envelhecimento ...), porém escutar o mesmo mocho, a mesma raposa, as mesmas estórias. Tal como na lenda, talvez tenha sido a poção mágica e medonha, desta experiência cíclica, o meu maior ferimento: a noite, os fumos, os cadáveres, a lua, a ruína, os sons.

Um lugar de afetos, afinal, também nasci aqui.


O POUCO OU MUITO A DIFERENÇA É POUCA

14 NOV - 20 DEZ 2014

Alberto Correia .Pollyanna Freire .Catarina Dias .Nuno Sousa Vieira

O pouco ou muito a diferença é pouca” *, com a curadoria de João Silvério, inicia um ciclo de exposições coletivas ou individuais da responsabilidade curatorial  de diferentes agentes (curadores, coleccionadores e galeristas) convidados pelo Módulo e que decorrerão durante o ano 2015/2016. O convite dirigido a João Silvério justifica-se por duas razões, o reconhecido trabalho curatorial que tem vindo a desenvolver, mas também ter sido aqui no Módulo que ele começou a atividade profissional na área das artes plásticas.

O pouco ou muito a diferença é pouca”1 é uma exposição colectiva que reúne artistas que trabalham com o Módulo, Carlos Alberto Correia e Pollyanna Freire, e dois artistas convidados, Catarina Dias e Nuno Sousa Vieira.

Tomando como ponto de partida questões essenciais à produção artística, como a escala e a produção aliadas a referências e processos de trabalho dos artistas, o espaço da galeria vai acolher uma intervenção que o altera mantendo a sua arquitetura original intocada. A presença da escultura indicia esta relação espacial em que a fotografia e o som constituem uma parte importante do (re)desenho do espaço.

O título sob o qual se constrói esta coletiva estabelece, na sua forma poética, essa aparente diferença entre a dimensão das obras e o movimento do corpo do espectador no espaço da galeria, abrindo um campo de observação sobre a serialidade, inscrita em obras que integram elementos semelhantes que as constituem, em confronto com a montagem de obras autónomas que denunciam esse princípio serial, sejam estas esculturas geométricas, e quase austeras, ou vozes reunidas perante a experiência grandiosa do sublime e a sua representação no pequeno formato de um registo de viagem.

João Silvério

outubro 2014

* “O pouco ou muito a diferença é pouca”Mark é um verso retirado de um poema de Jorge de Sena intitulado “O POUCO OU MUITO…” escrito em 28/5/1966 e publicado no livro A Visão Perpétua com edição de Mécia de Sena e editado pelas Edições 70, em 1989.


VASCO FUTSCHER - Cerâmicas

14 OUT - 18 NOV 2014

SUMMA CONTEMPORARY 2014

18 SET - 21 SET 2014

Bruno Dias Vieira . Nuno Gil . Pollyanna Freire . Tito Mouraz

FOTÓGRAFOS CONTEMPORÂNEOS - O Espírito do Lugar

5 JUL - 31 JUL 2014

Augusto Alves da Silva . Bernard Faucon . David Infante . Harry Callahan . Gérard Castello-Lopes . Graciela Iturbide . Jakub Karwowski . Jan Koster . Justine Kurland . Mafalda Marques Correia . Marilyn Bridges . Thomas Ruff . Tito Mouraz . Virgílio Ferreira . William Christenberry

PRIMEIRA PÁGINA

31 MAI - 1 JUL 2014

Tem sido tradição nesta galeria desde o seu início (1975), revelar novos   artistas nacionais. Primeira Página é mais um exemplo. Quatro artistas, que utilizando suportes variados, como pintura, desenho e escultura, têm aqui a sua primeira mostra pública, são eles:  Bruno Dias Vieira, Marco Moreira, Rita Ferreira e Sara Pereira.

Bruno Dias Vieira (1975, Leiria) :

Estes desenhos vivem de uma relação íntima com desafios labirínticos. Estão associados ao trabalho tenaz e ao erro, a desafios psicológicos e físicos que traçam e retraçam os meus passos. Formam um movimento e um padrão constituintes de um diário onírico-gráfico que se desenrola numa forma suspensa de tempo. Eles procuram criar um poema sem fim, uma espécie de labirinto com passagens misteriosas e súbitas mudanças, num novo e confuso lugar. Este labirinto convida-nos ao mesmo tempo que nos exclui ao fazer o caminho e a saída difíceis.

Marco Moreira (1978, Favaios)

Expõe um conjunto de desenhos e esculturas onde pretende reflectir sobre o processo de fixação, construção e manipulação da memória. Para este o desenho é “o elemento fundamental que está na génese de qualquer obra ou pensamento, encontrando-se mais próximo dos processos criativos e nesse sentido mais próximo da experiência.”

Rita Ferreira (1991, Óbidos): 

Seleccionou um grupo de trabalhos onde, diz-nos, “procura debater questões do campo da pintura, explorando a relação da imagem com o que esta representa, ou seja o campo de representação que a imagem gera, como forma de compreensão dos vários processos de pensamento e capacidade de produção de imagens.”

Sara Pereira (1977, Guimarães):

 Mostra um conjunto de olhares sobre a paisagem procurando transmitir-nos na sua obra a “organicidade, a diversidade de texturas, de materiais, de escalas, de formas e principalmente de tempos.” Assim é-nos apresentado um espaço recriado, abstracto, onde as formas e as cores nos remetem para a paisagem enquanto repositório dialético de signos e significados.

Marco Moreira, Rita Ferreira e Sara Pereira fazem parte da exposição El papel del dibujo VI: El mundo es mi imaginación, que acaba de inaugurar com bastante sucesso na galeria extremenha Angeles Baños, em Badajoz.


NUNO HENRIQUE - O grande atlas do mundo

12 ABR - 22 MAY 2014

O Grande Atlas do Mundo é o título dado por Nuno Henrique à sua terceira individual no Módulo. Artista originário na Madeira regressa nesta exposição a Gaspar Frutuoso (1522-1591) e ao seu manuscrito “Saudades da terra”: Livro II, Capt. IX”:

“Do porto dos Frades, pouco mais de meia légua, indo para o Ocidente pela mesma parte do Sul, está um ilhéu grande e redondo, meia légua afastado da terra, Norte e Sul dela, e alto das rochas todo à roda, que tem em cima grande campo, como de dois moios de terra, onde há muitos paus de dragoeiros, e por isso lhe chamam o ilhéu dos Dragoeiros; tem também zambujos, e criam-se nele muitas cabras, cagarras e coelhos de diversas cores.” (1)

(1) Saudades da Terra : Livro II, Capítulo IX, manuscrito de Gaspar Frutuoso [1522 -1591]. Nova ed. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998.

A obra que dá o título a esta exposição é, de facto, um atlas geográfico, onde, através do desenho, foi inscrita a topografia do referido ilhéu nas páginas expostas.

Nas restantes peças que integram a série, o autor trabalha novamente a partir  da caligrafia de Gaspar Frutuoso recorrendo à ampliação do desenho das letras e da sua modelagem em pasta de papel, directa ou através de moldes, Nuno Henrique criou um conjunto de linhas onde repetidamente se pode ler “O Ilheo dos Dragoeiros”.

Nuno Henrique nasceu em 1982 no Funchal. Concluiu, em 2005, o curso de Artes Plásticas – Escultura na Faculdade de Belas Artes do Porto. Frequentou o Ar.Co no ano de 2009 e tem já um largo circuito expositivo, sendo de destacar as exposições recentes: Aires del Oeste, R.O. Proyetos, neste momento a decorrer em Madrid;  Paisagem e Natureza na Arte Portuguesa Contemporânea (com. João Manuel Bernardo), no Museu de Évora, em 2014; ou ainda, Estradas Secundárias, Laboratório das Artes, Guimarães (2013) e Me, Myself and Y, IV Certamen Dibujo Contemporáneo Pilar y Andrés Centenera Jaraba (2012), onde recebeu o 2º prémio. O trabalho deste artista tem tido uma ampla difusão nacional e internacional junto de colecionadores. 

Brevemente obras suas figurarão na colectiva de desenho de artistas portugueses, El papel del dibujo, na Galeria Ángeles Baños de Badajoz e, mais tarde no final do ano, tem a sua primeira individual em Madrid na Galeria Twins Studio.

Uma obra de Nuno Henrique adquirida por um colecionador na última edição da Just Mad 2014, ficou na seleção  final dos 6 coleccionadores candidatos ao Prémio Pilar Citoler de jovem colecionismo


TÂNIA CAEIRO - Últimas pinturas

1 MAR - 5 ABR 2014

Tânia Caeiro (Vila Franca de Xira, 1985) regressa com uma nova individual reunindo um conjunto de pinturas sobre tela e trabalhos em papel. A pintura de Tânia Caeiro parte de um referente fotográfico que identifica o processo  de construção destes trabalhos expostos. Neste processo  assinala-se o afirmar da bidimensionalidade do suporte, uma relação figuração - abstração, uma sobreposição de várias camadas de informação, uma contenção da cor (com uma dominante de tonalidades pastel) e um diálogo de formas vegetais com elementos geométrico-arquitetónicos. A pintura, uma vezes mais líquida, outras mais espessa, aplicada a pincel, e também a spray, serve a um pretenso jogo de abstracção – figuração, num espaço ambíguo entre o bidimensional e a sugestão do tridimensional.

Como afirma Carlos Vidal num texto anterior sobre o trabalho de Tânia Caeiro: “É uma autora que cruza linguagens e disciplinas, forma e informe, parecendo a pintura funcionar como laboratório de desenho, e o desenho ganhar a espessura da mancha pictórica. Em dois suportes – papel, em grandes e pequenos formatos, e tela, apenas grandes, tomando a escala como factor de composição e com resultados sempre surpreendentes.”

A pintora refere sobre o representado nestes trabalhos:

O quintal desarrumado das traseiras, o bocado de terreno onde se acumulam restos de materiais de construção, mobiliário velho, hortas, animais, ferramentas, são o universo temático deste conjunto de trabalhos. 

Na pintura e desenho, isto traduz-se em redes, bocados de madeira, fragmentos de animais e plantas, pequenas construções, jogos de vazio - cheio, frente - atrás, orgânico -  geométrico, figurativo - abstrato, na sobreposição de camadas,..

A introdução da fita adesiva, da tinta em spray e o uso do acrílico diretamente do tubo para o suporte vieram alterar o resultado final destas pinturas em relação às anteriores. A cor é mais evidente, a tinta mais espessa e as formas estão mais definidas.

Tânia Caeiro (licenciada em pintura pela FBAL) foi um dos artistas revelados por ocasião da última edição da Arte Lisboa de 2012, a par de Tito Mouraz, Mafalda Marques Correiae Joana T. Silva, já expostos no Módulo. A artista foi seleccionada para FID  2011 (Foire International du Dessein 2011), em Paris, de que resultaram vontades aquisitivas de alguns coleccionadores estrangeiros.


CARLOS ALBERTO CORREIA - Landscape #1

11 JAN - 25 FEV 2014

Carlos Alberto Correia, na sua mais recente exposição, que inaugura no próximo dia 11 de Janeiro, apresenta trabalhos inéditos, um deles apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Este último toma como base o livro de poemas, Micropaisagem, do escritor Carlos de Oliveira. Tanto este, como os outros que constituem a exposição, questionam a relação entre dois conceitos diferentes, Paisagem e Natureza. Esta é segunda individual no Módulo, sendo Landscape #1, o título dado pelo artista à exposição. 

Se nas exposições anteriores a fotografia foi o suporte de todos os trabalhos, agora num novo medium, o artista expõe trabalhos dactilografados por uma máquina de escrever. A  exposição é composta por três séries de trabalho em papel e duas peças tridimensionais. 

Nestes trabalhos sobre papel, a informação é imensurável e o tempo está inscrito letra sobre letra, palavra sobre palavra, frase sobre frase. São inúmeras as camadas que criam cada imagem, desafiando o observador a decifrar a informação. Este é convidado a aproximar-se, tal como acontece com o leitor de um livro.

A série Micropaisagem, composta de 12 páginas quase vazias, mas que no centro destas aparece um detalhe da Natureza ou uma paisagem de Carlos de Oliveira, é uma reinterpretação dos 12 poemas que compõem o livro do poeta. Os poemas foram dactilografados fielmente, numa máquina de escrever, na pretensão de conterem todo o significado do poema, mas desta vez numa linguagem visual, numa micro mancha. Todo o poema condensado e reduzido a um único ponto,  fragmento que apresenta a Natureza.

Os outros trabalhos são a exploração do conceito de Paisagem. É a aproximação à Natureza em si, sem os filtros que o viajante, observador, artista, tem vindo a colocar sobre a Natureza e que deram origem à ideia que temos agora de Paisagem. Há um conteúdo e é a questão do que se pode encontrar, dizer ou escrever, acerca de cada elemento, porção ou imagem que temos da Natureza. Trata-se do limite entre a possibilidade de dizer tudo e não haver nada para dizer, porque é a impotência da identificação e apresentação da mesma. O resultado são páginas saturadas de informação em que é impossível a decifração do que lá está escrito. O excesso, o não haver mais espaço, com a ocorrência por vezes de buracos no papel. A insistência da procura pela definição mais próxima da realidade ou a incapacidade de perceção da verdade encontram-se no final.

Em Fragmentos da Natureza, o autor tem como referente uma imagem fotográfica tirada pelo próprio num formato quadrado e a partir desta, identifica tudo o que pode encontrar na imagem, como se tratasse de um diagnóstico: vento, água, rocha, céu, etc. Escreve tudo o que considera pertinente e o mais neutro possível sobre cada um dos elementos anteriormente detetados e assim gerando uma segunda imagem. Esta nova imagem, agora sem referente visual, é uma descrição sem referente aparente, mais completa, ou incompleta: com a força de poder conter toda a informação possível e no seu oposto conter a fragilidade de nunca se chegar realmente a ter uma noção, ainda que pequena, do que realmente se apresenta diante de nós. É a noite à nossa frente, ocultando uma imensidão infinita.

Na parede mais comprida da galeria é instalada a série Elements, como se de uma lista se tratasse, tentando representar uma espécie de dicionário/enciclopédia de diferentes elementos, fenómenos, que existem na Natureza: petróleo, arco-íris, vento, etc. É no tamanho de cada palavra (norueguesas, devido ao teclado da máquina de escrever) que toda a informação pertinente, crua, é dactilografada. Considerando que a palavra Vento em norueguês é Vind, o texto foi escrito no espaço de quatro caracteres. Mais uma vez, é a pretensão de num conceito resultante de determinado fenómeno ser possível (ou não) descrever nas infinitas possibilidades ou determinações desse mesmo. A ideia, o conceito e o conteúdo entram em tensão e eclodem originando uma mancha imperceptível no meio da página, onde por mais de uma vez, ocorre a não resistência do papel. 

Carlos Alberto Correia apresentou-se pela primeira vez no Módulo, em 2012, com a série de pequenas paisagens impressas em paralelipípedos de latão, série esta que vai ser em parte apresentada no próximo mês de fevereiro no espaço de projectos, em  Madrid, da Galeria Rafael Ortiz, numa exposição que reune vários jovens artistas portugueses. Carlos Alberto Correia licenciou-se na Faculdade de Belas Artes em Lisboa e encontra-se presentemente a fazer o mestrado em Trondheim, na Noruega. A sua primeira apresentação pública aconteceu no Arquivo Fotográfico de Lisboa, onde apresentou a série Pintura Gerada, que depois tivemos a ocasião de expor no stand do Módulo por ocasião de uma das edições da Arte Lisboa.


JAKUB KARWOWSKI - Sentimental fiction e outras histórias

9 NOV - 14 DEZ 2013

Jakub Karwowski é um jovem fotógrafo polaco que tem vindo a despertar a atenção do meio fotográfico internacional, depois de ter recebido o grande prémio da Bienal de Fotografia de Pozdan, em 2011. Natural de Cracóvia (1985), onde vive, estudou fotografia na Escola Nacional de Cinema de Lodz. 

A fotografia deste polaco não procura o documental, apesar das imagens  poderem ser vistas como tal, mas em todas elas verifica-se uma mais valia emocional e estabelecem uma relação com o cinema, referente presente na fotografia  do artista. 

Sentimental fiction é uma album de fotografias centralizado na mulher do fotógrafo, Ajka,. Tema recorrente na história da fotografia, lembremo-nos dos casos de Harry Callahan, por exemplo, embora a forma artística como cada imagem é pensada estabelece logo à partida uma distância assinalável à abordagem do documento. Não sendo então um projecto documental, mostra como a realidade pessoal está orientada e estruturada e como o fotógrafo vê o mundo íntimo à sua volta. A mistura de realidade com ficção, a tensão cinemática e a abordagem emocional criam a linguagem para o fotógrafo exprimir a essência da sua atitude estética. Dão igualmente origem à variação do local onde o espectador é convidado a observar essa ficção sentimental. Sentimental fiction e outras histórias reune fotografias tiradas entre 2008 e 2010. Rysa é o título do portefólio seguinte, em que o primeiro filho de Jakub Karwowski, Fryderyk, é o personagem central. (ver catálogo EI 2013)

Jakub Karwowski apresentou-se à visualização de portefólios na edição de 2012 dos emergentes DST dos Encontros da Imagem de Braga, tendo ficado nos melhores vinte desse ano. Este ano os Encontros da Imagem convidaram-no a apresentar uma individual do seu trabalho, dividido por duas salas, numa podem-se ver imagens de Sentimental Fiction, e na segunda, de Rysa.

Relativamente a Sentimental Fiction diz o autor:

What is going to become of a deliberately assembled family album which at the same time was trying to investigate current haunting problems? What does such a form demand?
The need to modify reality, to thicken the time and the situation, to stage things, to create a certain fiction or the illusion of fiction which will make it easier to speak of one’s own reality.
What is this own, personal reality?
It is an image that simultaneously generates memory and determines what one would like to remember. It is also an ordinary snapshot or a family picture, as well as an after-image and deja-vu.
It is both an account and reminiscence.
Sensitivity to images that are already familiar, that once appeared somewhere before our eyes – eyes conscious or unconscious of what they were seeing.
These images are scenes from movies we have seen, which are put together yet again from the surrounding elements by force of inertia. It is a state in which one wants to build an absolute monarchy of the image and cut oneself off from the non-ideal.
To live in this fiction, tangling it up with the form of a family album, framing it and hanging on a hook.

What is a family album without people who can identify the photographs it contains? An album without signatures, names, dates, names of places and the whole context which made it function as a collection of memories of a family? What is left of it when it is handled by someone to whom it was not addressed? What becomes of the reading of only the visual layer which is usually of secondary importance during the selection and choosing of the photographs for the album? What does the narrative springing from the sequence of the pictures, scenes, portraits and views speak about? Is it somehow related to the original intention of the author or is it completely at odds with it? Is another, partly reverse situation, possible, a situation in which the photograph without knowledge, consciousness and the will of the artist illustrates the synthesis of the future fate of those who appear in the photograph, the synthesis expressed precisely by means of the meanings and contents of the purely visual layer?
Is it possible to displace memories by the photographs that were taken at the very same time? Can one have a memory consisting only of photographed images, i.e. can one have a memory consisting of photographs only?”

Jakub Karwowski foi apresentado pela primeira vez em Madrid no decurso da Summa Contemporary Art Fair. A resposta foi assinalável, quer junto do público em geral, como dos críticos e galeristas. Alejandro Castellote, conhecido comissário na área da fotografia e director das primeiras edições da PHotoEspaña (Madrid) e responsável do novo centro de fotografia de Lima, Peru, programou mostrar o trabalho deste fotógrafo dentro da programação deste novo centro a abrir brevemente. Também o comissário Javier Diez se mostrou interessado na obra deste polaco.

O primeiro contacto do público lisboeta com a fotografia de Jakub Karwowski foi na exposição colectiva, Open Stock, que o Módulo realizou no final do ano passado.


JOSÉ MIGUEL GERVÁSIO - O Verão que ela usava tinha nos sapatos a cor dos seus pés

5 OUT - 5 NOV 2013

José Miguel Gervásio volta ao Módulo depois de um interregno de 3 anos, com uma exposição intitulada,O Verão que ela usava tinha nos sapatos a cor dos seus pés / Figures and grounds (Fadiga & Lassidão).

Pinturas sobre papel, muitas de dimensões apreciáveis, abordam a figura humana em espaços cenografados pelo artista. Embora todas as presenças reportem a um circuito de conhecidos do autor, não há em qualquer caso pretensões retratísticas dos representados.

Mas passemos ao texto que acompanha a exposição:

“O título da exposição é um acto falhado, começo por dizer. A palavra inglesa Figures impressa no título deve ser entendida no contexto das artes plásticas, significando forma, desenho e representação, mas também figurino, figura em pose, figura humana pintada ou desenhada, modelo à escala de um objecto ou criatura singular. O falhanço reside no esforço patético de reforçar o visível através de expressões verbais que, na sua essência, não são igualmente mais que hipóteses de representação, nas quais as imagens são consideradas como substitutos viáveis para ver as coisas lembradas ou imaginadas pelas palavras. As imagens expostas são  para levar para casa na memória, na melhor das hipóteses.

No plano bidimensional da razão, Grounds é o terreno da acção. Fadiga & Lassidão, são uma espécie de tempo poético propiciador dos objectos apresentados. Assim, Figures and Grounds (Fadiga & Lassidão), ganham sentido amplo sobre a possibilidade de um título mais romanceado, mais literário como tinha inicialmente previsto. A primeira parte do título, secundado por um subtítulo referido em surdina, confesso ser furtado de um artigo sobre Hendrick L. Berkley, pintor negro norte-americano contemporâneo. Mantive, por isso a língua original inglesa.

Os limites visíveis são os dos muitos caminhos possíveis, tal como a vida no planeta se multiplicou com a finalidade de o habitar.  Assim, o tal engano entende-se, mas não se pode confundir o todo com as suas partes, ainda que sejam mais ou menos importantes. Para o todo, neste meu caso, concorrem a soma de apenas algumas das suas partes, das que me interessam.

A presente exposição traduz-se num "novíssimo" conjunto de imagens. Submeto-me nela à Interpretatio Moderna de toda uma herança artística que dá forma a configurações mais ou menos canónicas. E digo isto, na medida em que as formas desta aventura passaram ao longo da história sem terem sido negligenciadas, até atingirem um reconhecido estado crítico em museus

e catálogos luxuosamente encadernados e escritos, mas é também um lugar onde tudo poderá ainda estar ligado e indiferenciado.

A minha história faz-se de inúmeros pintores. Sobretudo das suas imagens, podendo, a partir delas, quase certamente escolher um caminho como se se tratasse da travessia de um rio por cima das pedras para atingir a outra margem. 

No entanto, advirto que, este tipo de poesia, este tipo de representação, este tipo de arte, não faz apelo directo à história e, singularmente, aos recursos da própria história, na medida em que tem origem naquilo que não pertence à história, mas sim ao momento exactamente anterior à história cujo campo é o do domínio da literatura. Há uma história contada nestas imagens; há sim senhor, e tem título* sem estar escrita.

Ainda que entre outros pintores admire Poussin, a possibilidade de seguir uma linha de pintor-filósofo parece-me claramente distante. Em primeiro lugar, a minha limitada capacidade de reflexão sobre os temas clássicos e, depois, o talento que não tenho para ir tão longe. Utilizei, é certo, alguns dos elementos que podemos identificar em Poussin, tanto na composição, como na construção da imagem: a paisagem e a origem literária dos temas. Tenho em conta outras fontes, provavelmente mais próximas do meu tempo. O Manet, segundo a permanência da inconclusividade que se observa no seu Le déjeuner sur l'herbe, está para as minhas figuras, cujo grau de realismo é bastante aceitável de acordo com a minha mão que está sujeita a um tempo de trabalho fragmentado devido à profissão que exerço (confesso nunca ter tido coragem para passar fome), como estará uma condição referencial de excelência para outros. Como esteve o Poussin para o Balthus - ver o rosto do primeiro pintado no rochedo à esquerda, no belíssimo quadro do segundo, La Montagne (L'Été)

Hendrick L. Berckley é outra referência importante neste conjunto de trabalhos. As suas personagens negras vestidas de branco tornam-se visíveis variando o seu grau de realismo. Por exemplo, no quadro xxxxxxxxx à esquerda um homem moreno pálido que possui todo o charme de uma loja onde pousam manequins; à direita, a juventude andrógina usando um lenço desenrolado e óculos de coloridas lentes; e, claro, no centro do trabalho uma mulher, cujo nu adjacente duplica a possibilidade de visão de ambas, construindo uma imagem quase provocatória. Berkley e os seus amigos negros pintados vestidos de branco.

As pessoas que desenhei para esta série existem na realidade, têm nome e Cartão de Cidadão. Existem, também, nestes desenhos de acordo com uma segunda vida que desejei providenciar-lhes. Como se não contente com a minha tivesse utilizado aquilo que tenho ao meu alcance para projectar nos outros a necessidade absoluta da poesia, do  profundo impacto que a poesia deveria ter na vida quotidiana. A ruptura que este aspecto pudesse implicar na vida diária.

Foi um Verão de poetas este que passou. De mudanças e estados de espírito contraditórios que me levaram a contar os dias em desenhos, a pensar em desenhos, a reflectir no limite físico do papel. Podia viver assim, sem trabalhar e a inventar preocupações que que realidade mal interessam ao mundo e que, de resto, nem o fazem andar mais depressa, nem resolvem o apuro social em que vivemos. Nem sempre estar longe é um acto de cobardia.

Reclamo para mim, correndo o risco danado de me não ligarem nenhuma, ou de pensarem os críticos de arte que lhes estou a roubar o trabalho, a intenção pintada das figuras do Berckley, um certo Hockney com ares de pintor amaneirado renascentista, o actor de teatro pintado pelo Manet, a Alice Neel, a Charley Toroop, entre outros, e são muitos acreditem; mas também o gesto seguro e reflectido para além da abstracção, não quero dizer que a abstração não seja reflectida, mas neste momento considero a arte de características abstractas coisa decorativa e ao serviço do ambiente visual. 

Os desenhos que apresento nesta série necessitam de contemplação para que se tornem válidos. As exigências do tempo social que vivemos, e penso, muito sinceramente ter há muito perdido o comboio e viver fora dele em termos artísticos, implicam a realidade (não o realismo), mas a realidade como fonte segura de um referencial mesmo que criativo, acima dos estados e das excepções financeiras.  Este é um tempo de bandeiras, do vermelho e do negro. Não pretendo, como certamente se pode observar, a realidade documental que me parece aborrecida, ainda que possa ter sentido em certos contextos artísticos. Gostaria com o correr dos dias de atingir um nível de exigência do olhar sobre a qualidade do instantâneo. E pergunto se ainda poderá a arte prolongar na memória um flash de surpresa provocado pelo instante, contra a imagem televisiva e de esquecimento imediato.

Sentia-me muito mais feliz se existisse um movimento de ideias claras e transparentes, coisa que ultrapassasse as pudicas fronteiras do ser e do tempo. Uma coisa baseada na diferença e na liberdade.

Ou há canone, ou não há arte!”

José Miguel Gervásio apresentou-se pela primeira vez no Módulo em 2010, mas tem já um curriculum apreciável de exposições individuais e colectivas.

Recentemente expôs individualmente em Montemor-o-Novo e  nas duas últimas edições do Prémio Amadeo de Souza Cardoso.


CATARINA MIL-HOMENS - Nem sempre é a direito.

29 JUN - 31 AGO 2013

Catarina Mil-Homens tem no Módulo a sua primeira exposição individual , Nem sempre é a direito. Recém-licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Catarina Mil-Homens desenvolve no seu trabalho, principalmente desenho e instalação. Trabalha segundo a ideia de percurso de vida, a forma como nos relacionamos e marcamos o tempo e o espaço em que existimos. Debruça-se também sobre a questão da existência face à absorção de conhecimento, e sobre a relação que existe entre a matéria e o espírito. Neste momento, continua a explorar a relação que existe entre o desenho e a instalação.

Sobre a exposição agora a inaugurar refere: 

Ao ser olhado o tempo passando a coisa é diferente.

A madeira, o metal, o carvão e o vidro são os fios que aqui ligam o interior do

universo ao total da existência transformando-se em diferentes tipos de

tempo.

É um relato.

Macro e micro e nem sempre a direito da existência face ao tempo.

Apesar de só agora ter a sua primeira individual, Catarina Mil-Homens participou em várias colectivas, como: DIG, DIG: Digging for culture in a crashing economy, Plataforma Revólver, Lisboa, e Logradouro, Espaço Avenida 211, Lisboa, ambas em 2012.


Histórias Públicas...Mundos Privados.

18 MAI - 18 JUN 2013

Ana Mata . Catarina Saraiva . José Miguel Gervásio Mariana Gomes . Marta Soares . Nuno Gil . Nuno Henrique . Tânia Caeiro  Vasco Monteiro

No desenvolvimento da obnra de um pintor é pertinente a questão da escala, pois se um pequeno formato a sua relação é de dominador, no grande formato põe o problema da dimensão que é dominadora.  Para qualquer artista esta é uma quetão importante e pertinente e objecto de desafio para o próprio. A colectiva que agora apresentamos reúne um conjunto de grande formatos, que poderão servir para ajuizar cpm a escala é resolvida por cada interveniente. Em oposição haverá os pequenos ou muito pequenos formatos que, embora não expostos, são capazes de revelar outro tipo de questões relacionadas na forma como cada artista resolve a obra numa escala bastante mais pequena.  


TITO MOURAZ - Open Space Office

23 MAR - 4 MAI 2013

Tito Mouraz apresenta finalmente em Lisboa a série fotográfica Open Space Office que tem colhido uma larga atenção internacional, são vários os artigos saídos em revistas internacionais de fotografia, assim como inúmeros os comentários em blogs. Ainda recentemente em Madrid,  na Just Mad o trabalho exposto desta série foi muitíssimo comentado. A partir de 29 Junho esta série fotográfica será apresentada no Museu da Imagem, em Braga, e mais tarde no Festival PHOTAUMNALES, em Beauvais (França).

“O espaço começa quando olhamos para algo de distante do lugar onde nos encontramos...”, escreve Gus Blaisdell no ensaio sobre a obra do fotógrafo americano Lewis Balz.

No ensaio referencial “Problema da forma”, o escultor alemão Adolf Hildebrand distingue duas formas diferentes de ver; a visão pura, com os olhos e o corpo imóveis, captando uma impressão única, clara e planar de uma forma, uma “imagem distante”; e o oposto, a visão cinética, com os olhos e o corpo em movimento, num aproximar, num rodear ou no penetrar do objecto visado,  e assim obtendo uma impressão tridimensional do objecto. Hildebrand separou a forma real – a forma como é - da forma percetual – a forma como é vista. Ele considerou que esta última é a que verdadeiramente interessa à arte e à estética, pois envolve tempo e movimento, e depende de vários factores como, iluminação, envolvência e ainda do ponto de vista do captador. A aplicação desta teoria à fotografia de arquitectura é clara. Cada imagem coloca-se numa linha entre os extremos, distância e envolvência, considerando o confronto entre a descrição e a sensação, a obtenção de informação e o comunicar de uma experiência.

Open Space Office centraliza-se no triângulo do mármore do Alentejo: Estremoz, Borba e Vila Viçosa.

Prepare to be taken down to the deep, dark recesses of the manmade megalith that is the industrial rock quarry. Turns out it’s not actually as spooky and soot-filled as we might imagine – in fact it’s a thing of wonder, full of infinite ladders, sunlit stone facades and pools of liquid turquoise. “It is difficult to transmit on film the personal experience…one feels and observes at these immense and torn sites,” says Mouraz of his two-year project in Portugal. And while he may decry a photograph’s ability to convey the total picture, I’d say he’s done an immense job capturing the sheer scale of our excavations into the earth’s crust.

Charlotte Simmonds em It’s Nice That! de, 7.03.13

As afirmações de Balz e de Hildebrand justificam-se ao observarmos estas imagens de Tito Mouraz. Não se tratam de arquitecturas, mas a forma como o ele as capta permitem lê-las como tal, assim como torna-se claro a forma como coloca a máquina em muitas destas imagens, dando-lhes uma dimensão que vai muito além de uma atitude documental. Não nos esqueçamos que se tratam de imagens analógicas, que pela sua natureza não permitem qualquer manipulação, e assim o que apercebemos é resultado da forma como o fotógrafo nos quer revelar estas pedreiras. 

Sobre esta série fotográfica diz Tito Mouraz: “A série agora exposta foi realizada em Portugal durante 2 anos, e representa uma paisagem transformada que reflecte a existência humana como ser que constrói, reconstrói e a contempla. A paisagem aparece-nos, irreversivelmente, transformada tendo sido esta transformação que despertou o meu interesse para a concretização deste projecto, tomando, deste modo, a própria paisagem e respectiva matéria como referência.
Assim, estes trabalhos são acima de tudo representativos de uma realidade que sofre diariamente um processo acelerado de transformação. Portanto, as imagens não mostram mais do que uma realidade transitiva, numa paisagem natural paulatinamente em transmutação. São espaços imponentes únicos, de inegável impacto visual que conferem às imagens um grande conteúdo formal e plástico. Saliento, que estes foram os aspectos em que me concentrei, e visualmente tentei mostrar o que de melhor esta intervenção poderia oferecer ao olhar, quer ao nível da configuração formal, quer ao nível da harmonia cromática e lumínica que caracterizam estes espaços criadores de um ambiente sui generis. Neste sentido, estamos perante um diálogo entre a natureza e a acção humana, entre a harmonia do recorte texturizado e o que nele cresce, o que a envolve e transforma, como é particularmente visível nas primeiras imagens desta série, dando quase a ideia de um todo orgânico. Considero difícil transpor para a película a experiência pessoal de tudo o que se sente e de tudo o que se observa nestes locais rasgados e imensos, onde o silêncio é sentido de uma forma “anormal” e intimidatória. É sabido que a imagem não substitui o real.
Optei, por isso, por recortes integrantes, parcelas de horizonte escondido, de paisagem incompleta, propondo assim, outro modo de ver, já que a proximidade a estes locais, que crescem também no sentido inverso ao habitual, passam despercebidos ao espectador quase como lhe dando a oportunidade de os reconstruir.”

A anterior série Leitura(s) de Tito Mouraz, uma das exposições dos Encontro de Imagem de Braga em 2010, e depois incluída na exposição Portucale, em 2011, apresentada no Latvian Museum of Photography, Estónia e na Galeria Noorus, em Tartu do mesmo país, constituiu  a primeira individual do fotógrafo no Módulo, despertando imenso interesse junto de um público mais informado. Obras desta série figuram na colecção BES e em várias colecções particulares portuguesas e estrangeiras.


JOANA T. SILVA - Imagens à procura de histórias

2 FEV - 16 MAR 2013

Retomando a programação neste novo ano apresentamos a primeira exposição individual de uma jovem pintora, Joana T. Silva (Lisboa, 1987), que recentemente terminou o mestrado de pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. 

A pintura para esta artista é resultado de uma releitura de velhas fotografias, mais ou menos familiares, que funcionam como forma de questionar o papel da fotografia e o da pintura como  formas de representação de um real.

Sobre o trabalho exposto comenta a artista:

“As fotografias de família, guardadas cuidadosamente em álbuns, nascem de um desejo de impedir que o tempo apague a memória, transformando os momentos efémeros em imagens. Estas imagens de cariz pessoal, são pequenos instantâneos de vidas que podemos espreitar, quase como se espreitássemos algo secreto e, por isso, tão sedutor. Elas guardam em si universos privados que tocam a nossa memória.

A minha pintura nasce do olhar sobre estas imagens, imagens que são memórias de outros e que tenho vindo a recolher  ao longo dos últimos anos.

Ao contrário da fotografia, que pretende ser realista e devolver-nos o passado de forma tão exacta quanto possível, estas pinturas assemelham-se à nossa memória, pois são imagens distantes, desfocadas, como se a passagem do tempo lhes levasse a nitidez.

Agora, n a pintura, a imagem apresenta-se fugidia, constituída por manchas onde descobrimos uma subtil representação. Este cariz sintético e subtil da pintura afasta-a da fotografia que lhe deu origem, tira-lhe a identidade e por isso torna o momento representado universal, podendo assim ser um momento captado da vida de qualquer um de nós. As minhas pinturas poderão então ser como imagens à procura de histórias, imagens que convidam à viagem pela memória individual e colectiva.”

À exposição de Joana T. Silva seguem-se outras individuais de novos artistas que agora iniciam a sua actividade no circuito galerístico, como será o caso de Tito Mouraz, fotógrafo que neste momento tem vindo a captar as atenções internacionais e que iremos mostrar, em fevereiro, na Just Mad, em Madrid.


OPEN STOCK - 8ª edição

ALEIX PLADEMUNT . ANA TELHADO . ANA MATA . ANTÓNIO JÚLIO DUARTE . BRÍGIDA MENDES . CARLOS ALBERTO CORREIA . CATARINA SARAIVA . CONSTANÇA AROUCA DAVID INFANTE . DAVID TREMLETT  ELSA MARQUES . GERCO DE RUIJTER . JAMES WELLING . JAN KOSTER JIMMIE DURHAM . JOSÉ MIGUEL GERVÁSIO . JUSTINE KURLAND MAFALDA MARQUES CORREIA . MARIA JOÃO SALEMA . MARIANA GOMES MARTA SOARES . MIGUEL RIO BRANCO . NEDKO SOLAKOV NUNO GIL . NUNO HENRIQUE . PEDRO SARAIVA . RODRIGO AMADO TÂNIA CAEIRO . TATIANA MEDAL TITO MOURAZ   VASCO MONTEIRO VIRGÍLIO FERREIRA . ALEIX PLADEMUNT . ANA TELHADO . ANA MATA ANTÓNIO JÚLIO DUARTE . BRÍGIDA MENDES . CARLOS ALBERTO CORREIA  CATARINA SARAIVA . CONSTANÇA AROUCA DAVID INFANTE DAVID TREMLETT . ELSA MARQUES . GERCO DE RUIJTER . JAMES WELLING . JAN KOSTER . JIMMIE DURHAM . JOSÉ MIGUEL GERVÁSIO JUSTINE KURLAND . MAFALDA MARQUES CORREIA . MARIA JOÃO SALEMA MARIANA GOMES . MARTA SOARES MIGUEL RIO BRANCO NEDKO SOLAKOV . NUNO GIL . NUNO HENRIQUE . PEDRO SARAIVA RODRIGO AMADO . TÂNIA CAEIRO . TATIANA MEDAL . TITO MOURAZ .VASCO MONTEIRO . VIRGÍLIO  ALEIX PLADEMUNT . ANA TELHADO . ANA MATA . ANTÓNIO JÚLIO DUARTE . BRÍGIDA MENDES . CARLOS ALBERTO CORREIA . CATARINA SARAIVA CONSTANÇA AROUCA . DAVID INFANTE  DAVID TREMLETT . ELSA MARQUES . GERCO DE RUIJTER . JAMES WELLING . JAN KOSTER . JIMMIE DURHAM . JOSÉ MIGUEL GERVÁSIO JUSTINE KURLAND . MAFALDA MARQUES CORREIA . MARIA JOÃO SALEMA MARIANA GOMES . MARTA SOARES . MIGUEL RIO BRANCO NEDKO SOLAKOV . NUNO GIL . NUNO HENRIQUE . PEDRO SARAIVA RODRIGO AMADO . TÂNIA CAEIRO . TATIANA MEDAL . TITO MOURAZ 

O stock de uma galeria desperta sempre uma certa curiosidade para quem visita as exposições que vão decorrendo ao longo do ano, pois o acesso é sempre condicionado e algumas das obras não estão visíveis por razões várias. Há quem duvida ter acesso às melhores obras de um dado artista, ou a obras dos vários artistas com que a galeria trabalha.

Na verdade são conjecturas que não traduzem a realidade, mas reconheço ser gratificante poder ter acesso a obras de um maior número de artistas que naturalmente por questões de programação da galeria não estão visíveis ao frequentador habitual, caso não haja a possibilidade de haver uma exposição colectiva que os mostre. Open Stock vai permitir isso!

A participação numa feira de arte permite a todos os interessados poderem conhecer os artistas com que a galeria trabalha, e para aqueles, já habituais frequentadores, é um momento para apreciarem obras inéditas dos artistas que têm acompanhado ou então, como tem sido política do Módulo, conhecerem novos artistas, ingressados recentemente no “stable” da galeria e que até aí não tiveram a oportunidade de uma primeira individual.

Assim Open Stock vai responder às questões acima enunciadas. São 32 artistas presentes, que utilizam a pintura, a fotografia, o desenho, a escultura, com obras especialmente escolhidas, muitas dirigidas a potenciais coleccionadores. A secção Focus, novos artistas na galeria, também foi aqui contemplada e revelará obras de artistas entrados recentemente na galeria.

Concluindo, não haverá este ano uma nova edição da feira de arte, mas quem nos visitar não irá sair com toda a certeza defrauldado, pois o número de artistas expostos é superior àquele que consigo mostrar num stand de feira, mas a filosofia que sigo em cada participação é aqui a mesma, aliás já conhecida por todos que nos visitam!

No dia de inauguração de Open Stock Rodrigo Amado assinará o livro, acabado de editar e que acompanha a exposição, Un certain malaise, presentemente na Fundação EDP, em Lisboa. A todos os interessados mais informo tratar-se de uma edição numerada.


DAVID INFANTE - 123 90 948

27 OUT - 7 DEZ 2012

DAVID INFANTE (1982, Angoulème, França),jovem fotógrafo revelado na exposição, À flor da pele, no Centro Português de Fotografia do Porto, em 2007, e, no ano seguinte, no Prémio BES Revelação 2008, expõe uma nova série fotográfica a partir de 27 de outubro 

(até 30/11). Em 2009, em Lisboa, teve a primeira individual no espaço da Kameraphoto. 

No catálogo do Prémio BES, Sérgio B. Gomes refere a dada altura: “.... Sem serem autofágicas, as fotografias de DAVID iNFANTE tendem para a auto-suficiência narrativa, mas não o isolamento, nem tão-pouco a depuração de sentido. São muitas vezes labirínticas na forma e no jogo percetivo e muito enredadas no conteúdo. A variedade de géneros com que Infante trabalha (retrato, auto-retrato, paisagem) serve para ampliar ainda mais o universo do seu programa fotográfico rumo a uma complexa teia de referências, que vão desde um espaço pessoal e reconhecível até aos mais abstratos e dispersos contornos geográficos. Desde a mais íntima expressão do rosto até à sua negação enquanto veículo privilegiado de contacto de quem olha para quem é olhado..  ....”

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A série, que agora mostra, confirma um autor com um percurso pessoal, onde sentimos uma estranheza constante perante as várias situações encenadas que DAVID INFANTE regista a preto e branco e em provas analógicas. A presença dominante do retrato, com ou sem máscara ou a paisagem conduz-nos a outros territórios que vão além da mera fidelidade fotográfica. 

DAVID INFANTE designa o portofólio, agora apresentado, pela série numérica, 123 90 948. No texto da folha de sala, o autor refere a dada altura: “Em todo o meu trabalho aparece refletida de forma constante “ a busca da identidade”. A nossa identidade formaliza-se através de um número identificador que nos acompanha por todo o tempo de vida e nos identifica perante a sociedade.

Da mesma forma que, apesar da vivência das mudanças e das transformações por que passamos, esse número nos acompanha sempre, a “obra” operada por cada um, representa a sua própria identidade em círculos mais restritos, capaz, por si só, de definir o indivíduo muito para além do abstrato que é um conjunto de caracteres, a formar um número.

Ironicamente, do pouco ou nenhum sentido do paralelismo que possa existir nestas formas de identificar a pessoa, nasceu a ideia de dar a este trabalho o título 123 90 948, que por um

lado, é uma identificação pessoal e, em simultâneo, passa a ser a marca “emblemática” da obra por mim produzida. 

Se o tal identificador numérico jamais me abandonará , tenho a certeza que as minhas fotografias me acompanharão sempre, já que são elas a parte mais importante da minha identidade. “.

O InShadow - Festival Internacional de Vídeo, Performance e Tecnologias já se afirmou como uma referência internacional no campo da criação artística interdisciplinar entre vídeo, performance e tecnologias. Integra a apresentação de espectáculos, performances, solos, instalações, exposições, sessões de competição internacional de vídeo-dança e documentários, e workshops e masterclasses. 

Aberto a todos os interessados e aos participantes do Festival InShadow, no dia 1 de dezembro, pelas 17h30, acontecerá no Módulo uma visita à exposição completada por uma conversa com o fotógrafo.

Em 2012, o InSahdow cumpre a sua 4ª edição, um co-produção entre a Vo’Arte e o São Luíz Teatro Municipal, e acontece de 1 a 8 de Dezembro no Teatro São Luiz, Teatro do Bairro, Módulo – Centro Difusor de Arte, Pickpocket Gallery, Galeria Graça Brandão e Atelier Câmara Lenta,Centro Nacional de Cultura e Faculdade de Motricidade Humana.

Um Festival para todos os públicos que evoca múltiplas sensibilidades num espaço de cruzamento entre a imagem e o corpo.


NUNO HENRIQUE - As saudades da terra

15 SET – 25 OUT 2012

As Saudades da Terra é o título dado por Nuno Henrique à sua 2ª individual no Módulo. Este artista esteve presente na última Feira de Arte de Santander, seleccionado pela comissão desta feira para a participação do Módulo. O trabalho na altura exposto, e que agora, no Módulo, tem continuação, despertou um interesse assinalável junto de coleccionadores e galeristas, confirmado por diversas aquisições.

Assinale-se que a obra desta artista já tinha despertadoa curiosidade na exposição final que culminou uma residência artística, orientada pelo artista Lothar Baumgarten, e que teve lugar na Fundação Botín da mesma cidade cantábrica.  

Como na individual anterior no Módulo, Nuno Henrique, originário do Funchal,  toma como ponto de partida para o trabalho desenvolvido um determinado aspecto do arquipélago madeirense, neste caso a espécie botânica, dragoeiro, em muitas zonas quase extinta.

O trabalho que expõe no Módulo (15/9 – 23/10) tem por base o Livro II, Capítulo IX, do manuscrito “Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso (sec.XVI), no qual se faz a descrição histórica do povoamento da Ilha do Porto Santo, e onde surgem várias alusões ao dragoeiro (espécie botânica que na ilha encontra-se extinta no estado natural).

As obras expostas referem-se particularmente à descrição do “Ilheo dos Dragoeiros”, situado ao largo de Porto Santo. Através da caligrafia e do corpo de texto referente à descrição do ilhéu, apresenta um conjunto de “calcos” (técnica da Arqueologia, que tem utilizado e desenvolvido plasticamente), assim como aguarelas, e um modelo topográfico do ilhéu. 

Tal como é referido no texto do sec. XVI e que a seguir se cita, uma das utilidades atribuídas ao dragoeiro "... do tronco dos quais se faz muita louça ... e gamelas que levam um moio de trigo.”. A instalação complementa-se com duas esculturas criadas através da  ampliação de um origami.

NUNO HENRIQUE nasceu no Funchal em 1982. Concluiu, em 2005, o curso de Artes Plásticas - Escultura pela Faculdade Belas Artes do Porto, em 2009, frequentou o Ar.Co. Em 2010 expos individualmente no Módulo o projecto “Quarenta calcos”, que anteriormente tinha sido mostrado na Casa das Mudas, na Madeira, projecto expositivo comissariado por Alexandre Melo. Entre as exposições mais recentes em que figurou destacaria a individual no Museu Geológico e a colectiva, Cinco Séculos de Desenho na Colecção da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, no Museu N. Soares dos Reis, Porto.


ALEIX PLADEMUNT - DubaiLand

30 JUN - 12 SET 2012

Aleix Plademunt (Girona 1980) é um fotógrafo catalão que apresenta um conjunto de imagens recolhidas no Dubai de hoje. A série intitulada, DubaiLand, destaca alguns dos  símbolos que reportam à acção do homem e a sua inter-relação com o espaço envolvente na cidade do Dubai. Pretende-se com estes símbolos ampliar o olhar no sentido de uma visão mais global e alargada de forma a revelar as evidências sociais e ideológicas que determinam alguns dos nossos hábitos e inquietações de uma geração. 

A metrópole do Dubai foi construída num  tempo mínimo e com um máximo de investimentos. O que poderia ter sido uma cidade modelo converteu-se num resultado artificial e distante. O reconhecido antropólogo, Marc Augé, refere a dada altura do texto sobre esta série fotográfica: “.... não se trata apenas de uma imagem deformada do Ocidente, um sonho mimético e alienado, mas a verdade do universo mental e físico que hoje nos é comum, onde quer que vivamos”(ver abaixo texto integral)

Ao vermos estas fotografias confrontamo-nos com um registo de acções irónicas resultantes da existência do ser. Não se pretende uma aproximação antropológica, mas antes uma observação fascinada por não termos respostas, pela surpresa, o fascínio ao mesmo tempo que o absurdo, no processo de construção artificial da paisagem, e da nossa relação com todos estes elementos. Mas citemos Christian Caujolle : « Ce Dubaï là, celui de lʼillusion, du trompe lʼoeil, des apparences trompeuses, est en parfaite adéquation avec les fonctionnements même de la photographie qui donne à voir et laisse croire, sans se soucier et même sans savoir aller au delà de la surface. Aleix Plademunt, jeune artiste catalan, a parfaitement compris le parti quʼil pouvait tirer de ces leurres, de ces décors qui semblent, au bout du compte, nʼappeler rien dʼautre que lʼimage. Il a tiré les leçons des coloristes contemporains, sans se laisser prendre ni par une tradition américaine qui sʼémousse après avoir changé la vision dans les années soixante-dix, ni par la rigueur implacable et la froideur de lʼécole allemande qui tient depuis vingt ans le haut du pavé, sur le terrain des espaces urbains et architecturaux entre autres. Il nʼa pas copié, il ne sʼest pas coulé dans un moule, il a appris de la rigueur et du fonctionnement par projets, par séries.

Dubaïland. Cʼest un immense parc dʼattractions poussé aux limites actuelles de lʼimaginable. Un jardin artificiel dans lequel on amène à prix dʼor de lʼeau pour faire pousser au bord des routes des ifs que lʼon taillera impeccablement, comme dans des jardins « à la française », un espace dans lequel une fusée, sortie tout droit de Tintin, tentera de séduire sous le soleil le visiteur qui ne se sera pas réfugié dans la fraîcheur dʼune pyramide égyptienne bien accompagnée de ses obélisques et de son Sphinx ou qui nʼaura pas fait halte à lʼombre dʼune tasse monumentale de « Nescafé ». Dubaï, cʼest un monde, un nouveau monde, dans lequel, sur le bord de lʼautoroute, des jeeps grosses comme des immeubles donnent lʼéchelle des véhicules filant sur lʼasphalte, devenus ridicules miniatures, et qui nʼont aucun sens de la mesure, ni de la modestie. » (ver abaixo texto integral)

Aleix Plademunt tem uma extensa participação em exposições colectivas e individuais de referência em Espanha e no estrangeiro, como também uma longa bibliografia, de que destacaria apenas 100 New Artists da comissária Francesca Gavin, editado em agosto de 2011 em Londres. 

Seguem os textos integrais de Marc Augé e também do francês Christian Caujolle, redactor-chefe durante vários anos da secção de fotografia do jornal, Libération, director dos Rencontres  Internationales de la Photographie d’Arles em 1977 e fundador da Agência Vu de Paris, onde é responsável pela programação da galeria Vu.

Aleix Plademunt percorre o Dubai como quem folheia um livro de imagens. Detém-se em algumas delas, isola-as e converte-as, por sua vez, em imagens. Imagens de imagens, portanto, mas atenção: nestas imagens do Dubai, que ele escolhe para converter em imagens, fotografias para ser mais exacto, está presente o mundo contemporâneo, o mundo em que todos nós vivemos, onde os avanços da ciência e da tecnologia adquirem cada dia mais força e da forma mais espectacular, particularmente através das imagens que esse mundo dá de si mesmo. Dito de outra maneira, nestas fotografias descobrimos o processo de “mise en abyme” característico da nossa época, ao qual não damos a devida atenção por fazermos parte no dia a dia desse movimento que nos conduz constantemente de aqui para lá, da realidade para a ficção e da imagem à imagem. Esta vertigem é - nos induzida pelos diferentes meios de comunicação, que julgamos manipular quando são antes estes os manipuladores, e se nos parece natural é porque perdemos a capacidade de os controlar.

Dito isto, há lugares em que isto é tão pronunciado, como que por um efeito de “amplificação”, que funciona um pouco à maneira de um sinal que é preciso saber perceber e decifrar. É precisamente aqui que a fotografia de Aleix Plademunt intervém com uma eficácia cujos mecanismos gostaria de analisar brevemente nestas linhas.

O Dubai não é a Disneylandia, não se apresenta oficialmente como um parque temático separado do mundo que o rodeia por uma fronteira – a que divide a ficção da realidade. Claro que, inclusivamente na Disneylandia, essa fronteira relativisa-se ou está em vias de desaparição. Dentro dos parques criados por Disney há zonas comerciais e lugares onde se podem praticar actividades distintas que para o cidadão médio americano são normais e familiares, e no exterior desses recintos estão os hotéis, prédios de habitação, ou inclusivamente (como no caso da Disneyland Paris, uma cidade com a marca de Disney, apesar de se situar fora do ambito da ficção oficialmente reconhecida como tal. Nas fotografias de Aleix Pladedmunt o tema da “não fronteira” é retomado como um leitmotiv ou como uma variação modulada sobre diferentes ritmos. Vemos aí desaparecer sistematicamente a fronteira entre tecnologia e arte, entre microcosmos e macrocosmos, entre função e representação, e é de certo modo esta negação que o fotógrafo fixa na película.

Qual é a diferença entre o 4x4 gigante que domina a estrada e o que circula por ela? A viatura com rodas enormes e à primeira vista desmesuradas que estaciona numa garagem em forma de pirâmide é uma fantasia ou o meio mais eficaz de se deslocar na areia do deserto? Dentro do globo terrestre erguido sobre rodas onde se pode entrar por uma porta pequena, depois de se ter subido por uma escada metálica, há um laboratório ou uma atracção? A não ser que se trate de um objecto de arte dirigido ao nosso olhar e à nossa reflexão?

O tema da supressão da fronteira vem da negação, ou diria antes que é o princípio de toda uma série de negações postas sistematicamente em cena: negação da morte (as esculturas dos elefantes e das girafas impressionam mais do que os próprios animais vivos); negação do clima (como se a verdade estivesse do lado dos oásis ou das neves artificiais); negação do deserto ( onde se constróem as cidades mais modernas).

Há no entanto outras imagens que, face às imitações dos clichés da modernidade tardia, reivindicam a eternidade da tradição beduína: o deserto, a caça, o falcão, o cavalo. Como se pode mudar sem mudar? Reside aqui a obsessão de todos os que entram na modernidade com receio. Há toda uma série de belas palavras nostálgicas que resumem essa ideologia da adaptação conservadora: valores, tradição, fidelidade... Essas palavras, hoje, já não são tais, simplesmente imagens, estereótipos como tantos outros, onde sobrevivem alguns tópicos da bravura masculina que têm certamente a vida dura, mesmo que o cavaleiro do deserto se tenha transformado em jogador de pólo. Esses estereótipos e, em geral, o conjunto das imagens simultaneamente convencionais e surpreendentes sobre as quais se detém o olhar do fotógrafo adquirem força pelo facto de terem sido extraídas do seu contexto, estão isoladas, captadas na sua incongruência essencial.

Na minha opinião, o tema central destas imagens não são as singularidades do Dubai. Se a fotografia vale ao mesmo tempo pelo que mostra e pelo que sugere, ela sugere aqui, por detrás do kitsch da decoração e da aridez do deserto, a força e fragilidade de uma natureza ameaçada. Ela põe-nos diante do jogo de espelhos onde se perde o olhar do homem, ao procurar encontrar-se. Mostra-nos que o Dubai não é apenas uma imagem deformada do Ocidente, um sonho mimético e alienado, mas a verdade do universo mental e físico que nos é comum hoje em dia, onde quer que vivamos. O gasto desmedido, a fuga para a frente, a negação de uma realidade que nos assusta ainda mais por nos sentir responsáveis pela sua degradação... Tudo isso é nosso. De uma forma deliberada ou não, a imitação e a caricatura dizem sempre a verdade.

O olho crítico do fotógrafo localiza essa verdade, fá-la sair do esconderijo e transmite-a a nós com a temível inocência que reside na essência da sua arte. Basta que nos mostre um a um os elementos do sonho que os reuniu (um obelisco, uma chávena de café gigantesca, uma nave espacial.... ) para que possamos perceber neles, irrisórios e inquietantes, os pedaços soltos do nosso futuro impossível.

Marc Augé 

DUBAILAND por Christian Caujolle

Dubailand. Oui, comme Disneyland. Mais un Disneyland qui ne serait pas du tout une destination pour visites familiales (par ailleurs ruineuse… ), avec personnages bien vivants venus des films qui, après avoir traversé lʼAtlantique , ont enchanté, de dalmatiens en Minnie, de Pluto en Roi Lion, des générations dʼenfants. Qui ne serait pas non plus un espace médiatisé dans lequel un Président de la République, pour se faire remarquer, fait savoir à son bon peuple quʼil est amoureux

dʼune chanteuse dʼorigine italienne en portant lʼenfant de cette dernière sur ces épaules. Non, un Disneyland où vivre. Un espace entièrement fabriqué, aux portes du désert, au sein du désert, comme un défi à toutes les règles qui, depuis les débuts de lʼhumanité ont vu des êtres sʼinstaller dans des contrées accueillantes, ou au moins supposées telles.

Dubaï est un petit pays. Mais dʼune très grande richesse, venue de son sous-sol, insoupçonnable sous lʼétendue de sable : le pétrole, lʼor noir. Un pactole que, dans la logique de

lʼargent, il faut investir, faire fructifier, installer pour que reste quelque chose après que la source, comme cela adviendra, soit tarie. Alors, Dubaï parie sur le tourisme. Un tourisme de luxe extrême, où lʼon ne compte plus la surenchère dʼétoile pour des palaces futuristes dont lʼesthétique combine clichés des Mille et Une Nuits, Star Wars et échos en carton pâte dʼune Antiquité fantasmée. Quʼelle soit gréco-romaine ou encore égyptienne. Pour que le rêve soit plus fort, inimaginable en fait, et  pourtant bien « réel », on construira des îles, de nouveaux polders gagnés sur la mer, mais en forme de palmiers, on fera preuve dʼextravagance, on débordera de dorures, on affichera les codes

dʼune luxuriance orientale que les occidentaux raffinés trouveront de mauvais goût, avec cimeterres en néon et statues géantes, façon bronze, aux paillettes clignotantes. Lʼapparence du toc et la lourdeur dʼun « chic » formaté sur les normes récupérées des valeurs de lʼOuest, avec toute la gamme de produits de luxe, de marques clinquantes, de bimbeloterie dʼor et de diamants.

Cʼest donc Dubaï. Dubaïland. Dubaï qui sʼimagine comme un futur, qui sʼinvente un futur construit par des immigrés à la peau brune venus souvent dʼAsie et normalement exploités par les anciens bédouins ayant oublié leurs tentes et leurs chameaux dans leurs grosses voitures climatisées. Un futur ? Cʼest ce quʼils disent. Ce quʼils croient certainement. Ce dont ils ressentent le besoin, de façon de plus en plus prégnante au fur et à mesure que la source de richesse dit sa fragilité. Venue du néant, la ville dit, plus que tout autre, en les poussant à leurs limites absurdes, les désirs, les fantasmes, les illusions du monde contemporain. 

Ce Dubaï là, celui de lʼillusion, du trompe lʼoeil, des apparences trompeuses, est en parfaite adéquation avec les fonctionnements même de la photographie qui donne à voir et laisse croire, sans se soucier et même sans savoir aller au delà de la surface. Aleix Plademunt, jeune artiste catalan, a parfaitement compris le parti quʼil pouvait tirer de ces leurres, de ces décors qui semblent, au bout du compte, nʼappeler rien dʼautre que lʼimage. Il a tiré les leçons des coloristes contemporains, sans se laisser prendre ni par une tradition américaine qui sʼémousse après avoir changé la vision dans les années soixante-dix, ni par la rigueur implacable et la froideur de lʼécole allemande qui tient depuis vingt ans le haut du pavé, sur le terrain des espaces urbains et architecturaux entre autres. Il nʼa pas copié, il ne sʼest pas coulé dans un moule, il a appris de la rigueur et du fonctionnement par projets, par séries. Il reste dans la logique de ses travaux antérieurs, de sa captation des lumières et de la couleur pour analyser et mettre en crise le monde quʼil traverse, poser des questions, pointer des absurdités, sʼinquiéter sans se lamenter. Tout cela sans spectaculaire, avec un joli sens de lʼhumour et de la dérision. Cʼest ce quʼil a démontré dans son projet « Res » (« Rien », en catalan) pour lequel il a installé ce mot, lʼun des plus courts et les plus significatifs peut-être dʼaujourdʼhui, dans toutes langues et les graphies du monde, de Grèce au Japon, des Etats-Unis en Turquie, de Chine au Mexique, de Russie en Egypte et, bien entendu, à Barcelone. Dans la logique, également, de sa proposition des « Spectateurs » qui, tour à tour insolites, isolés ou en masse, regardent un univers inquiétant, dérisoire ou normalisé sur leurs chaises pliantes en bois, de celles que lʼon retrouve dans le monde entier.

Dubaï. Dubaïland. Cʼest un immense parc dʼattractions poussé aux limites actuelles de lʼimaginable. Un jardin artificiel dans lequel on amène à prix dʼor de lʼeau pour faire pousser au bord des routes des ifs que lʼon taillera impeccablement, comme dans des jardins « à la française », un espace dans lequel une fusée, sortie tout droit de Tintin, tentera de séduire sous le soleil le visiteur qui ne se sera pas réfugié dans la fraîcheur dʼune pyramide égyptienne bien accompagnée de ses obélisques et de son Sphinx ou qui nʼaura pas fait halte à lʼombre dʼune tasse monumentale de « Nescafé ». Dubaï, cʼest un monde, un nouveau monde, dans lequel, sur le bord de lʼautoroute, des jeeps grosses comme des immeubles donnent lʼéchelle des véhicules filant sur lʼasphalte, devenus ridicules miniatures, et qui nʼont aucun sens de la mesure, ni de la modestie.

On peut imaginer les chaises des « spectateurs » dʼAleix Plademunt, installées devant un « rien » calligraphié en arabe et traduit en « Nothing » face à une mappemonde rutilante installée sur un rond point de Dubaï. Il nʼy aurait là aucune exagération.

Christian Caujolle


PEDRO SARAIVA - Gabinete > musad

19 MAI - 26 JUN 2012

Na continuidade da investigação que tem vindo a realizar nos últimos anos sobre gabinetes, a exposição de Pedro Saraiva, presente no Módulo e intitulada gabinete > musad, retoma as questões da dupla inventiva como princípio unificador, num conjunto de trabalhos que adotam várias linguagens, nomeadamente pintura, fotografia e desenho. 

“Trabalho esse que passa pela criação de heterónimos, isto é, de personalidades criativas que possuem, no seu interior, uma coerência que remete para a ideia de identificação e, concomitantemente, de identidade(s) criativa(s) múltipla(s)”, conforme refere Delfim Sardo no texto de catálogo gabinete < codina, 2008.

O gabinete > musad apresenta um conjunto de trabalhos de pintura e fotografia, “atribuídos” ao pintor e fotógrafo do Mali, Musad Maïga (1952), e que se articulam em dois eixos fundamentais – viagem, memória. 

Pedro Saraiva nasceu em Lisboa em 1952. Vive e trabalha em Lisboa. 

Professor Catedrático de Desenho pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Expõe regularmente, tanto no país como no estrangeiro, desenho, pintura e mais recentemente fotografia desde os anos 70. Trabalha com o Módulo desde os finais dos anos 80. 

Obras suas figuram em reconhecidas coleções particulares e públicas, nomeadamente, em Galeria Redies/Alemanha, Centro Cultural de Almansil, Casa Museu Teixeira Lopes, Museu de Catania/Itália, Secretaria de Estado da Cultura, Fundação P.L.M.J., Fundação Carmona e Costa, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Casa da Cerca, BCI, Ministério das Finanças, Ministério dos Negócios Estrangeiros, entre outras. 


NUNO GIL - Cloudy

14 ABR - 15 MAI 2012

Os pioneiros da arte abstracta como Paul Klee ou Piet Mondrian não poderiam admitir que os resultados revolucionários a que chegaram, teriam algo a haver com o ornamento, apesar da existência de um mundo não objectivo muito anterior à primeira aguarela criada por Vassily Kandinski por volta de 1911/12, uma vez que este mundo do ornamento estava adstrito às zonas de circulação, funcionando como elemento decoração e de ornamentação. Hoje não podemos falar sobre pintura contemporânea, de Frank Stella a Philipp Taafe, sem ter presente o conceito do ornamento. 

Nos vários momentos em que se anunciou a morte da pintura, constatou-se que, pelo contrário, ela tornou-se numa fonte de juventude com capacidade de rejuvenescimento de conceptualizações artísticas estéreis. É claro que atravessamos um período de autoregeneração da pintura, mas um tipo de pintura que já não segue o percurso linear da história de arte, antes é capaz de surfar por cima e por baixo dessa linearidade. 

A tela em vez de se tornar um suporte obsoleto, tornou-se um espaço primordial para uma nova geração de artistas com uma mentalidade cultural e antropológica diferente que são capazes de traduzir outras visões do mundo exterior onde vivemos, mas que no entanto dizem respeito ao mundo real.  Se Masaccio revolucionou e organizou o mundo da representação ao aplicar o método inovador da perspectiva matemática, um artista de hoje com vinte e poucos anos é capaz de revolucionar a cada hora a representação do mundo recorrendo a diferentes tipos de perspectivas, e recreando em simultâneo um número infindável de espaços simbólicos.

E a prova disso são os trabalhos de pintores mais novos que temos vindo a apresentar, tais como Mariana Gomes, Tânia Caeiro e, o que agora expomos,  Nuno Gil. 

Nuno Gil (Lisboa, 1983) foi apresentado pela primeira vez no stand do Módulo por ocasião da última Arte Lisboa. As pinturas, agora expostas, resultam da sobreposição de camadas sucessivas de tinta em que a camada posterior contribui para gerar uma variedade surpreendente de formas. O resultado final é uma pintura barroca de forte cromatismo e de grande sentido decorativo. Já no papel, a colagem de fragmentos de forma variada de papéis previamente tratados, conjugam-se com o desenho a grafite em inesperadas composições. A noção de barroco e o seu funcionamento específico surgem em negociação com ideias como o informe ou a decadência das próprias pinturas enquanto objectos, também elas sujeitas ao passar do tempo. Cloudy é o título que o pintor dá a esta série de trabalhos, pois é o estado onde o fundo desaparece para se tornar, precisamente por isso, mais importante que a figura. 

Nuno Gil licenciou-se em pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em 2008, e consta no seu percurso recente algumas exposições de grupo  em espaços lisboetas de referência, como o Pavilhão 28 ou a Sala do Veado.


CARLOS ALBERTO CORREIA - Grande Paisagem

14 JAN - 29 FEV 2012

Se bem conscientes das dificuldades que Portugal atravessa, não é caso para desistirmos. Para uns, ano novo, vida nova, para o Módulo ano novo, artista novo! 

Carlos Alberto Correia licenciou-se em Pintura em 2011 na Faculdade de  Belas Artes de Lisboa.  Pintura gerada foi o título da primeira exposição individual comissariada por José Luís Neto, realizada no Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo de Fotografia. Algumas obras da série, Pintura Gerada, foram mostradas no stand do Módulo na última edição da Arte Lisboa, tendo despertado uma grande atenção e vontade aquisitiva  (100% de vendas! ). O tema da paisagem é recorrente na ainda curta obra deste artista, mas a escolha do tema serve ao artista para interrogar o género no contexto da arte contemporânea, como também equacionar a possibilidade da sua desconstrução. Relativamente a esta série escreveu Sandra Vieira Jürgens : “Na mostra Pintura Gerada, o artista apresenta um conjuntos de fotografias de paisagens naturais, por vezes montanhosas, onde expõe registos pictóricos, numa linha de intervenção que indaga a relação humana contemporânea com a realidade natural e evidencia o desejo humano de possessão e de construção cultural sobre a natureza.
Por um lado, o seu ponto de partida são fotografias descritivas, representações cruas de paisagens naturais existentes, que o artista primeiro fotografa para depois desenvolver intervenções pictóricas sobre elas. Combinando a prática da fotografia com a intervenção pictórica, as suas imagens desenvolvem-se a partir de uma tensão entre a dimensão objectiva do fotográfico e a dimensão subjectiva e informal da gestualidade pictórica, que excede o registo descritivo e faz transparecer a interpretação pessoal do tema. No seu trabalho, o artista metamorfoseia uma paisagem informativa numa narrativa, aludindo à experiência de partilha, da vivência pessoal do lugar como génese e desenvolvimento da obra.
Por outro lado, se o seu ponto de partida é um tema quase intemporal, a paisagem natural, Carlos Alberto Correia desconstrói a herança contemplativa na apropriação do género e produz, através da inscrição de apontamentos cromáticos abstractos sobre a fotografia, um gesto paradoxalmente construtivo e iconoclasta que acrescenta leituras contemporâneas ao objecto paisagístico. Esse gesto pode constituir uma alusão metafórica ao sentido de construção cultural de uma natureza imperfeita, e/ou a um acto iconoclasta que caracteriza a relação do ser humano com a natureza.”

Grande Paisagem é o título que o artista deu à instalação agora apresentada no Módulo. Carlos Alberto Correia volta a utilizar a fotografia nesta exposição. As diferentes paisagens transferidas para uma das faces de pequenos paralelipípedos de latão. A pequena escala de cada um destes objectos  obriga o observador a aproximar-se  de cada um destes pequenos objectos. O distanciamento que normalmente tomamos ao observar uma paisagem é aqui ironicamente alterado, como também o título da série explicita.

Sobre esta exposição diz o artista: “Grande Paisagem, uma instalação que consiste na apresentação de um conjunto de peças que criam um percurso dinâmico onde o observador se sinta atraído. Estas peças, em latão, douradas, com força espacial e com uma imagem fotossensível colocam o espectador numa situação de grande intimidade. Somos convidados a aproximarmo-nos porque estas micro - paisagens requerem tempo para um momento de contemplação. Paisagens que se proclamam de grandes, que no entanto são redimensionadas a uma pequena escala. A noção de uma paisagem bela, com profundidade, assente num suporte dourado com a pretensão de o lugar ser enaltecidos e contemplado. Estas peças, com um sentido único e de auto - valorização, como se tratasse de uma jóia e de um objecto passível de ser portátil, transporta o espectador a percorrer o espaço expositivo; lírico, como se tratasse de o artista, que também viajou para realizar estas imagens que também se acolhem de diversas viagens.”


MAFALDA MARQUES CORREIA - Welcome to my home.

12 NOV - 31 DEZ 2011

Tendo estudado pintura e fotografia, o trabalho de Mafalda Marques Correia encontra-se entre as duas disciplinas: fotografia, pela técnica de produção e pela natureza dos elementos que compõem a imagem; pintura, pela estética e processo de composição de cada peça.

O seu trabalho divide-se em pequenas séries ligadas por uma temática comum, onde cada imagem desenvolve, por vezes com algum sentido de humor, o assunto partilhado por esse grupo de obras. O resultado são imagens de elevado carácter narrativo, onde ambientes e acontecimentos imaginários, se confundem com efígies pertencentes à esfera da memória, uma memória distorcida e manipulada pela passagem do tempo e pelo capricho da criadora.

Através da fotomontagem digital, utilizando e experimentando técnicas e tecnologias nossas contemporâneas, são construídas representações, que procuram ser verosímeis — e não verdadeiras —, subvertendo a captura directa da fotografia, para o campo da composição construída da pintura.

Cada trabalho apresenta-se como uma pequena narrativa, que procura ser capaz de captar a atenção do observador, ao ponto de este a decifrar, na maioria das vezes com o auxílio do título da imagem ou da série.

Nelas não existe a cor, apenas a estrutura, porque a fotografia a preto e branco não é a fotografia do nosso tempo, e a pintura a preto e branco é habitualmente desenho. Eliminando a “coordenada” cor  elimina-se a possibilidade de através dela fazer uma leitura cronológica, porque cada época se manifesta na imagem fotográfica através de determinadas tonalidades: seja pelo gosto de cada período, que preferirá cores mais saturadas ou tonalidades mais quentes, seja pelo próprio desvanecimento de certos pigmentos pela passagem do tempo. Eliminando a cor, apenas o claro/escuro e as construções intervêm na nossa percepção.

Nesta exposição foram reunidos vários grupos de trabalhos que partilham um mesmo elemento que, embora não ocupe uma temática central, é recorrente nas imagens de Mafalda Marques Correia: a casa. Esta exposição intitula-se Welcome to my Home, título partilhado com a série mais recentemente produzida, e que se adequa também a esta primeira exposição pública individual, uma vez que a galeria se transforma, durante este período, na casa que acolhe um imaginário próprio e no qual o visitante é convidado a entrar.

A casa é o cenário das vivências quotidianas, o porto de abrigo e o reflexo de cada um de nós. A casa é também a metáfora do mundo íntimo do indivíduo, neste caso, da autora.

“Bem-vindos à minha casa” é o convite que a artista nos deixa.

Mafalda Marques Correia (Viseu, 1980) licenciou-se em Belas Artes – Pintura em 2003, na Faculdade de Belas Artes do Porto, e pós-graduou-se em Estudos de Fotografia em 2005, no IADE em Lisboa. Em 2010 concluiu o Mestrado em Pintura, ainda no formato pré-Bolonha, na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, cidade onde actualmente vive e trabalha.

A exposição integra-se na programação do Festival In Shadow

Exposição no âmbito do InShadow – Festival Internacional de Vídeo, Performance e Tecnologias, que decorre de1 a 11 de Dezembro no São Luiz Teatro Municipal, Teatro do Bairro, Museu Nacional de Arte Antiga, Módulo – Centro Difusor de Arte, Pickpocket Gallery, Musicbox e outros espaços informais de exibição.”

InShadow  é um Festival transdisciplinar que cruza linguagens artísticas contemporâneas e criações tecnológicas com uma vertente experimental, através da exploração dos conceitos de imagem e corpo que interagem no vídeo, no palco ou em espaços de formação.


MARIANA GOMES - What a Show, Everyone was Terrific !

8 OUT - 8 NOV 2011

Mariana Gomes (Faro,1983) volta á galeria com uma nova série de pinturas, óleo s/ tela, que confirmam tratar-se de um dos casos mais interessantes na pintura abstracta portuguesa. What a Show, Everyone was Terrific !,  é o título dado à exposição constituída por dois grupos de pinturas, um de pequeno formato e outro de grande formato. O título provém de Ed Wood, filme de Tim Burton, onde se aborda a problemática do erro e do mau feito. Embora a obra desta artista incida na exploração da plasticidade do óleo e a valorização da cor, Mariana Gomes consegue sempre surpreender-nos pela constante inovação que nos traz para cada nova exposição. A pintora explora uma paleta cromática variada e uma infinita possibilidade de formas, onde o humor é um outro elemento a considerar. 

Mas para melhor compreender este trabalho transcrevo o texto que acompanha esta nova série de pinturas:

Espetacular

adj. unif. 1 Que dá muito nas vistas; grandioso; aparatoso; ostentoso; espaventoso

2 [coloq.] excelente; muito bom; magnifico 3 [pop.] escandaloso (Do fr. Spectaculaire, “id”) ACORDO ORT grafia anterior: espectacular.

Espetáculo

n.m .1 tudo o que atrai o nosso olhar e a nossa atenção; cena 2 contemplação 3 representação teatral 4 diversão 5 [pop.] escândalo; dar∼ provocar escândalo (Do lat. spectaculo-, “id.”) ACORDO ORT grafia anterior: Espectáculo

Corrigir

v.tr. 1 fazer a correção de; emendar 2 tornar exato ou mais exato; retificar 3 melhorar

4 endireitar; compor 5 atenuar os exageros ou inconvenientes de; temperar; suavizar; compensar 6 modificar 7 infligir um castigo a; castigar • v.pron. 1 emendar os próprios erros 2 lutar contra os próprios defeitos ou comportamentos considerados incorretos (Do lat. corrigere, “corrigir”)

Mariana Gomes licenciou-se em pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e, recentemente, recebeu uma menção honrosa no Prémio de Pintura Fidelidade Mundial -Jovens Pintores 2011, entre as várias exposições individuais ou colectivas, cito a exposição:  Superfícies de contacto, comissariada por Luísa Soares de Oliveira.


TÂNIA CAEIRO - Pintura

2 JUL - 30 JUL 2011

A exposição reparte-se por dois grupos, acrílicos sobre tela e sobre papel. Tânia Caeiro (1985, Vila Franca de Xira) é finalista do curso de Artes Plásticas - Pintura da Faculdade de Belas Artes de Lisboa. A pintura de Tânia Caeiro é o resultado de um jogo constante entre a abstracção e a figuração. A artista designa estas pinturas como desenhos pintura, onde o apagamento, a sobreposição de várias camadas e a aplicação bastante diluída da pintura abstractizam o resultado final.

Em cada trabalho apreendemos uma série de sinais, deparamo-nos com um universo temático variado: peças de mobiliário, gaiolas, redes, animais e aves, que sugerem paisagens, pormenores arquitectónicos aparentes, jardins,.... Estas referências contaminam naturalmente o modo de fazer, onde se assinalam toda uma série de oposições, tais como dentro–fora, interior–exterior, à frente–atrás, formas orgânicas–geométricas/arquitectónicas, cheio–vazio, tapado–desvelado, opaco–transparente, espesso–diluído.

A cor utilisada nos diferentes trabalhos situa-se numa zona de paleta de meios-tons. As várias camadas de tinta quase sempre muito diluída servem para sugerirem momentos diferentes, como de palimpsestos se tratassem, no entanto incapazes de obliterar os vários registos que foram sendo feitos.  

São pinturas que resistem a um primeiro olhar e obrigam o observador a uma leitura mais demorada nesse processo de identificação do que foi representado.

Tânia Caeiro foi mais um dos artistas revelados por ocasião da última edição da Arte Lisboa, a par de Tito Mouraz já mostrado e Mafalda Marques Correia que terá a sua primeira individual na segunda parte da época. Tânia Caeiro foi uma das finalistas da Faculdade de Belas Artes de Lisboa seleccionada pelo juri internacional da FIA  2011 (Foire International du Dessein 2011), em Paris no passado mês de abril.


VASCO MONTEIRO - Novas Pinturas

16 ABR - 17 MAI

Vasco Monteiro regressa ao Módulo com uma nova série de pinturas (óleo s/ tela). Cada pintura é resultado do cruzamento de vivências colectivas com um imaginário pessoal  que o pintor funde de modo a criar uma linguagem muito própria. 

Em todas as situações há um humor e um inusitado que provocam o observador. Vasco Monteiro, como outros pintores que têm vindo a aparecer tem confirmado que o continuado anúncio da morte da pintura não será para os próximos tempos, pelo contrário, a pintura e o desenho têm sofrido uma constante renovação como aqui podemos provar.  

Vasco Monteiro, nestas pinturas de grande e pequeno formato, conta-nos histórias que por vezes ficam por contar e nos deixam vontade de saber mais. Trata-se de pintura mas também da possibilidade desta, poder narrar mais alguma coisa para além dela própria.

Vasco Monteiro estudou no Ar.Co, em Lisboa e apresentou o projecto individual no Pavilhão Branco do Museu da Cidade de Lisboa em 2006 por ocasião da exposição de Finalistas e Bolseiros do Ar.Co. A revista L+Arte nº28 (Setembro 2006) publicou um artigo da autoria de Pedro Faro. Esta é a terceira individual no Módulo.


JOSÉ PEDRO CORTES - Moi un blanc

12 MAR - 18 ABR

José Pedro Cortes (Porto 1976) expõe uma nova série de fotografias sob o nome comum de Moi, un blanc. Estas imagens foram resultado de uma viagem do fotógrafo ao Mali no ano passado, onde teve ocasião de fotografar o estúdio de Malik Sibidé, reconhecido fotógrafo que desde a década de sessenta tem vindo a construir uma enorme e curiosa galeria de retratos dos seus conterrâneos. A obra fotográfica de José Pedro Cortes tem sido produto das muitas viagens que tem realizado, lembremos, a título de exemplo, a recolha de imagens feitas em vários países do leste que deu origem à primeira individual aqui no Módulo.  A série, agora mostrada, teve já uma apresentação parcelada, em Paris por ocasião do Paris Photo, com uma boa recepção da crítica especializada e grande destaque no jornal holandês, de Volkskrant, e ainda na secção Emergent-Lleida no Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, de Lleida, em outubro passado. 

António Pinto Ribeiro no texto que escreveu sobre esta série fotográfica diz: 

No título da exposição está todo um programa e uma teoria privada do autor relativamente à fotografia: Moi,un blanc (Eu, um branco). E poderíamos continuar a frase subentendendo todo esse programa timidamente enunciado: Eu, um homem branco viajei para África e dentro deste enorme continente viajei no interior do Mali, um país da costa oeste atravessado pelo mítico Rio Niger. Este era um dos rios que até princípios do século xix dele pouco se sabia e o que se contava eram lendas relativamente ao seu traçado, à sua fauna e flora bizarras, à possibilidade de estar ligado ao Nilo. Mas foi durante séculos um rio indomável, desconhecido tanto mais porque era uma das entradas para o interior da África Negra desconhecida. A história desta região onde agora fica o Mali é uma história de riquezas arqueológicas do período rico e glorioso da África pré-colonial de uma região agrícola riquíssima e por onde passava a rota do ouro com cidades majestosas como Timbakte. Hoje é um dos países mais tranquilos desta região de África. foi por aqui, por estas terras, que José Pedro Cortes viajou. O termo deve ser preciso: viajou com a consciência de que ele era o homem branco que atravessava estas terras, que viajava por aquelas estradas nos "chapas" ou a pé; o termo deve ainda precisar que esta consciência de ser o branco visitante o aproxima do perfil dos primeiros etnógrafos curiosos e generosos como Jean Rouch, por exemplo, que por ali andou e muito filmou em meados dos anos 50  do século passado.

E onde se diz que  neste enunciado existe um programa e uma teoria privada diz-se da postura recatada das tomadas das fotos, da ausência da espectacularidade ou mais ainda do reforço o do investimento do fácil exótico. E a teoria privada afirma também de uma  fotografia que "espera", de uma fotografia vagarosa. Tomar cuidado é um termo renascido pelo filósofo Stigler e basicamente diz que em relação aos outros que conhecemos, ou com quem começamos a lidar,  a primeira postura deve ser a do tomar cuidado, estar atento ao  outro ainda antes de o questionar ou inquirir, mesmo que seja pelas melhores razões.

É isto que é visível nas fotos de José Pedro Cortes.

Mas falemos também desse lado - poderíamos dizer -  técnico, desta fotografia e tomemos em atenção que o formato das fotos e a tomada da mesma é coerente com o programa: as fotos são planos distanciados o suficiente para que não haja intrusão do fotógrafo no campo; as fotos guardam o ambiente do fotografado no seu enquadramento, as fotos contribuem para a dignificação das personagens numa região sobre a qual os clichés da pobreza, da miséria e da doença são abundantes.

Uma das constantes que atravessa toda a literatura de viagens sobre África e aquela que afirma da pujança da natureza que tudo absorve, que na sua omnipresença se torna na entidade mais importante de África; com a sua complexa e ambígua natureza má e boa simultaneamente, acolhedora umas vezes e mortal outras vezes. Dessa natureza, neste caso bondosa, temos vestígios nas fotografias de José Pedro Cortes, seja na praia imensa que acolhe um casal correndo, seja na presença das árvores, da terra, das plantas sempre presentes nos quintais e no horizonte.

 E tomemos as cores. Durante anos foram os próprios fotógrafos africanos que se interditaram fotografar a cor. Talvez para não competirem com as cores que os circundavam por todo o lado. Agora há uns anos, as gerações mais novas já se atreveram a fotografar as cores e o fotógrafo não resistiu, não poderia resistir a esta festividade de cores, a tanta composição que a ele se lhe é dada como oferta e que de algum modo traduz um outro ambiente das terras de Mali e que é a música. Todo o Mali é cheio de música e de músicos e se nestas fotos do fotógrafo não há nenhuma foto de música, ela está presente no sopro que afasta a cortina da porta, no cavalgar do muro, no retrato de perfil (um sussurro contra a palma da mão), na geometria da camisa de um retratado.

Há , finalmente, um gesto fotográfico de enorme subtileza e de delicadeza. Trata-se da foto do estúdio onde o fotógrafo Malick Sidibé desde a  década de sessenta  faz retratos dos seus conterrâneos. São notáveis as  suas fotos de retratados a sós ou em pequenos grupos, vestidos de roupas de dança ou domingueiras, que ali foram retratados naquele pequeno estúdio que não tem mais do que oito metros quadrados. O cenário pouco varia: o chão aos quadrados ou negro ou branco e atrás do banco um ciclorama rudimentar com três opções de cenário. Por ali passaram milhares de malinianos e não só, várias gerações de africanos que e por orientação de Malick deviam posar alegres expressando a felicidade. Não há mingúem a posar nesta foto do estúdio "roubado" a Malick Sidibé por José Pedro Cortes. Entenda-se como uma enorme homenagem ao fotógrafo africano e aos seus retratados.

A sua obra figura em acervos institucionais e privados, em Portugal como no estrangeiro, destacando no país as colecções do Banco Espírito Santo, da Fundação P.L.M.J e Centro Português de Fotografia.


PEDRO VAZ - Entre a Montanha e o Vale

12 FEV - 9 MAR

Pedro Vaz é pintor, pensa enquanto pintor, cria momentos pictóricos, percorrendo e construindo mundos de cor, mancha, sem horizontes definidos, paisagens observadas e desejadas, lugares que participam do domínio do encantamento, entre a realidade e o sonho.

As obras de Pedro Vaz – pintura sobre madeira, aguarelas, vídeo e instalações – combinam diferentes elementos da natureza segmentados, percursos, caminhos, que dividem campos cromáticos mais ou menos intensos, quase sempre verdes, envolvidos e diluídos pela constante bruma da imaginação.

Desde 2005 que o autor se serve da “paisagem” (Natureza primitiva, espaço virgem) como referência na sua obra. Da paisagem faz "multimodais retratos", recorrendo à pintura, desenho, vídeo, instalação e ainda escultura, que medeiam a sua obra.

A exposição "Entre a Montanha e o Vale", é a terceira exposição individual do Autor no Módulo - Centro Difusor de Arte, que nos propõe que se observem atentamente e somente pinturas, na sua generalidade monotonais, figuradas entre a pintura e o desenho, conduta esta de carácter gestual. Pinturas que se situam no limbo de um estado de definição, entre a abstracção e a figuração, criando a ilusão entre espaço (lugar) e a superfície (suporte).

O conjunto apresentado de obras é composto por grandes e pequenos formatos, tanto em papel como em madeira.

Pedro Vaz (Maputo, 1977), iniciou a seu percurso artístico no Módulo - Centro Difusor de Arte em 2005. Licenciado em Artes Plásticas / Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2006.
Expôs individualmente em 2010, Em Passo, na Kubikgallery, no Porto e Quarenta passos, no Centro de Arte de Cultura em Ponte-de Sôr. Em 2009, Expanded Nature, Voyeur Project View, em Lisboa e em 2007, Forma e Lugar, Modulo, Centro Difusor de Arte, em Lisboa.

No passado ano foi publicado no artigo, O Bom Selvagem - Novo Talento, por Pedro Faro na edição de Julho de 2010 da revista L+Arte, nº62.

A sua obra figura em acervos institucionais e privados, em Portugal como no estrangeiro.

Uma outra obra, Natureza Expandida, faz parte da selecção de artistas contemporâneos em exposição no Shopping Center Amoreiras, onde poderá ser vista até 24 de fevereiro.

Entretanto não deixe de visitar a exposição, A corte do norte, comissariada por Vítor Pinto da Fonseca, na Plataforma Revólver a decorrer até 10/3  e, ainda, Terras de Risco, na Sala Veado, Museu de História Natural, em Lisboa, de 3/3 a 25/3. Outras presenças de Pedro Vaz  são nas exposições, Livros de artista, no Centro Cultural de Ponte de Sôr – de 12/3 até 12/4 – e, Sobre - Natural, na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea – de 26/3 até 4/9.


DANIEL MELIM - Novas pinturas

8 JAN - 8 FEV 2011

Uma nova série de pinturas que sucedem ao trabalho mostrado na última individual de Daniel Melim ( 1982, Coimbra ) no Módulo, onde o pintor construía em primeiro lugar o modelo, que depois pintava sob uma placa de vidro. Aqui nestes últimos trabalhos, Daniel Melim retoma o a construção prévia do modelo a ser pintado. 

Neste caso recorrendo a uma série de tecidos estampados ricos na cor e muitos outros objectos servindo para o pintor explorar uma linguagem pictórica, assim como os limites dessa mesma linguagem. 

Transcrevendo o texto que Daniel Melim escreveu sobre estas pinturas: “ Estas novas pinturas são feitas com tinta acrílica sobre uma membrana acrílica transparente, que é o seu suporte. Esta película é colocada esticada na vertical entre o observador e a coisa – modelo. Neste processo o autor começa por pintar em primeiro lugar os pormenores, e no final o fundo, a imagem toma forma. Durante o processo, o autor só pode ver a pintura se der a volta e for ao outro lado, à face da película que está voltada para a coisa - modelo, pois é desse lado que a pintura se vai dar a ver no final ao espectador. O que sucede, então, é que na verdade o autor durante a maior parte do processo só vê as “costas” da pintura. 

Se, por um lado, isto torna necessário o estabelecimento de um grau de rigor na escolha  e manutenção do ponto de vista e de outras variantes do pintar (para que este processo de pintura “invertida” não desemboque em cegueira inconsequente), por outro lado liberta o autor da pressão de estar sempre a lidar com os seus próprios juízos sobre o que faz. Ou seja, maior parte do tempo o observador apenas tem, com um único olho aberto, como no perspectógrafo Renascentista, de “copiar” para a película as formas e as cores que vê do modelo através da própria película.

Os modelos são feitos de materiais diversos ( p.ex.: tecidos, paus e garrafas de plástico) e instauram presenças evocativas  mas difíceis de nomear com precisão. Nesse sentido, para que seja livre a relação do espectador com a pintura, nem as obras nem a exposição têm título.”

Daniel Melim formou-se em Artes Plásticas- Pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e em 2007  foi Prémio EDP Novos Artistas 2007

O próximo número de Janeiro da revista L+Arte sairá com um dossier sobre o pintor da autoria de Pedro Faro.


VIRGÍLIO FERREIRA - Uncanny Places

4 DEZ 2010 - 4 JAN 2011

Virgílio Ferreira, laureado com o 1º Prémio dos Talentos emergentes nos últimos Encontros da Imagem de Braga, em Setembro passado, interessou-se pela linguagem fotográfica desde muito cedo devido a um avô que era proprietário de uma velha loja de fotografia  no centro do Porto. Com a idade de 16 anos ingressou na escola de fotografia do Porto, tendo posteriormente frequentado a École des Arts et Métiers de Paris, e depois a School of International Cinema of Cuba, em Havana.

Numa primeira fase do seu trabalho Virgílio Ferreira explorou o retrato, na intenção de criar tipologias. Esta investigação culminou com o portofolio, We and the others, onde abordou grupos de pessoas com modos de vida contrários aos hábitos de uma sociedade de consumo massificada. Na construção desta série o fotógrafo viajou pela Europa e América do Sul na procura dessas comunidades, misturando retratos com fotografias de interiores domésticos e das comunidades alternativas. Terminado em 2004, este portofolio foi apresentado no Centro Português de Fotografia, no Porto, circulando depois pelos Festivais de Fotografia de Salónica, na Grécia, e Pip, na China, e ainda pelo Círculo de Belas Artes de Tenerife e as galerias FNAC, em Portugal, França e Espanha.

Em 2006, Virgílio Ferreira recebeu uma bolsa da Fundação Oriente para um projecto individual em Macau. Esta residência deu origem à uma nova série fotográfica, Daily Pilgrims, onde vemos variados personagens, que se fundem com a paisagem e as luzes de cidades asiáticas. Deste portofolio foi editado um pequeno livro que foi muito referido na critica internacional. O portofolio, teve por sua vez uma larga circulação em festivais de fotografia, como no de Aleppo, Síria, na 2º edição do de Mannheim, Alemanha, no de Lodz, Polónia e nos de La  e Miami. Também foi exposto no Museu da Imagem, em Braga, no Centro Português de Fotografia, no Porto, no Southeast Museum of Photography, na Flórida, e no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona.                   

A série, Uncanny Places, que agora expomos, foi iniciada em 2007, sendo cada imagem o produto de uma dupla exposição do mesmo local com intervalos de tempo muito curtos. Esta dupla exposição do negativo cria uma ambiguidade na leitura das paisagens. O observador, na impossibilidade de um fácil reconhecimento da paisagem captada,  é convidado a construir uma narratividade. As imagens transportam muito de onírico, de um mundo entre o real e o sonho.

Deste portofolio, que foi recentemente concluído numa residência de Virgílio Ferreira em Pequim, algumas imagens já figuraram em várias exposições, sempre com grande sucesso. Nos últimos Encontros da Imagem de Braga, em setembro passado, o fotógrafo recebeu o 1º Prémio na secção de Talentos Emergentes. Virgílio Ferreira entrou para o Módulo em 2009 e foi um dos focus no stand da galeria na Arte Lisboa 2009. Este trabalho foi galardoado com uma menção honrosa em 2008, em Nova Iorque, na primeira edição de Hey, Hot Shots!


ANA MATA - Novas pinturas

16 OUT - 20 NOV 2010

Uma nova série de pinturas divididas em dois grupos quanto ao formato, tamanhos grandes e tamanhos de menores dimensões que agora são bastante maiores que os mostrados na última exposição. De novo a fotografia é o referente para cada pintura e de novo é a própria artista, o marido ou o filho representados.  O trabalho desta jovem pintora (Setúbal 1980 – licenciada pela FBAL em 2003) reflecte a possibilidade da pintura hoje. Já não estamos perante a representação a partir do próprio modelo, mas a representação pictórica parte da imagem fotográfica. Se na série anteriormente mostrada a relação pintura-fotografia era o lei motiv agora encontramos uma maior preocupação com a linguagem da pintura. A marca do pincel e a fisicidade do material são perfeitamente destacáveis numa aproximação aos trabalhos, enquanto que o distanciamento em relação à obra permite maior clareza na leitura da imagem representada.

Relativamente à constância da presença da fotografia verificada no trabalho desta pintora responde a própria:

“ Porque gosto de as olhar longamente, porque me atraem e porque encontro um encanto no refazer da imagem, uma alegria que descobri no laboratório de fotografia ao ver uma imagem surgir no revelador ou, mais recentemente, na visão da aparição de um instantâneo polaroid. Há uma beleza especial neste surgimento, uma aura de magia, um movimento da imagem que me seduziu e que tem estado sempre presente no meu trabalho de pintura. Repito a visão de tal aparecimento, movimento. A fotografia surge então para mim como modelo: quer na relação de analogia que estabeleço entre a pintura e a imagem fotográfica; como no seu processo, no modo de um aparecimento lento que se dá num crescendo global da imagem, num aprofundamento em que estico, por dias, semanas, o que foram íntimos segundos de tempo. Contra a lisura fria da fotografia, a pintura encerra a exuberância de um excesso de tempo, a memória de um processo, de um acontecimento. A pintura, apontando a perfeição indicial do seu referente fotográfico, surge como trama orgânica de sucessos e erros, a imagem humana, atravessada.

Sobre a obra de Ana Mata escreve Marta Cordeiro para o novo número da revista, Umbigo:

As pinturas de Ana Mata são sempre mais que superfícies, são lugares construídos a partir da sobreposição de camadas finas (de tinta, é certo) de tempos e espaços, como se várias películas em perigo de deterioração se deixassem fundir, mantendo a transparência e capacidade de iludir movimento. Por esse motivo existe a sensação – em cada uma das pinturas e na totalidade – da construção de uma narrativa sequencial, realizada de forma precária como num fenaquistiscópio, onde a rotação dos vários frames estáticos iludem o movimento. Aqui, a deslocação depende dos desfasamentos na sobreposição das camadas - no caso particular de cada imagem - e da sensação de existir um período de tempo que compreende a realização e o desenvolvimento das pinturas. As imagens reportam-se a espaços rurais, ou ao mesmo espaço visto de diversos ângulos e em diferentes épocas – a mutação dos verdes e da folhagem define um tempo cíclico, que retoma periodicamente o ponto de partida e circunscreve a história das personagens de um álbum. Esta paisagem intemporal é o lugar de cruzamento de indivíduos de diferentes épocas, os antepassados (especialmente nas obras anteriores) e os de hoje sendo o fantasma do corpo da artista o elo de ligação entre os elementos do álbum de família.

A figura de Ana Mata, sucessivamente presente, fita o espectador em Susana, única pintura que permite o encontro entre olhares; nas outras imagens o rosto encontra-se apagado, desfocado ou escondido atrás da câmara fotográfica. Aqui, a posição é a do fazedor de imagens que tenta, acima de tudo, captar a luz – a luz de um local particular, a luz que espanta a retina ou a luz que é a própria fotografia e que, como a artista refere, partilha com estas pinturas o aparecimento por revelação. A câmara que esconde o olho e aponta para o sol recorda-nos que aquilo a que nunca podemos aceder directamente é à luz e ao olhar. Os olhos do próprio, tal como a luz do sol, podem apenas ser vistos “através de”a - um espelho, uma fotografia, uma pintura – são lugares impossíveis.

Ana Mata, que participa actualmente na exposição ResPublica-1910 e 2010 face e face, na Fundação Gulbenkian, tem desenvolvido uma obra destacada pela crítica e foi seleccionada para várias exposições colectivas como o Prémio Ariane Rotchild ou  festival Mont Rouge, em França.


JOSÉ MIGUEL GERVÁSIO - Princípio e Substância

11 SET - 12 OUT 2010

Ausente do circuito durante algum tempo, José Miguel Gervásio regressa com uma nova exposição individual em suporte papel.

Com um percurso ligado a galerias do Porto, esta será a sua primeira apresentação em Lisboa. A série de pinturas em papel, que agora se mostram, estão relacionadas com três grandes pinturas anteriores, duas o Módulo teve ocasião de mostrar na Arte Lisboa 2009 e a outra foi exposta no 7º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante.

Relativamente a esta série de trabalhos, intitulados Princípio e substância

(Quantas vezes serei capaz de dizer a mesma pintura de cor?),diz o pintor”

A imagem é um facto artístico. Enquanto lugar de visibilidade considero-a mesmo o elemento reflexivo do mundo.

Um princípio é uma proposição de onde deriva o conhecimento para outras proposições que enumeram factos a partir dos quais se consideram outros factos. O princípio que detém esta extensa série de pintura, expressa-se na ideia de um processo de evolução ontológica.

Neste conjunto de pinturas sem tema integro os valores do património das sociedades, assimilados na permanência do acto de fazer que os abstractiza e caricaturiza. As figuras pintadas apresentam sempre um determinado grau de pureza e de autenticidade e servem a representação pictórica e, consequentemente, a imaginação.

Apresento uma espécie de viagem que denuncia os modos, as experiências, as convicções, as convenções e os dogma das chamadas Belas Artes, é certo; mas a evidência das representações dos meus objectos (identificáveis monstros e outras

quiméricas efabulações), no seu significado simbólico são a medida da reprodução da memória e dos sentidos. Denunciam-se nas formas, na ilusão, na ironia e na  inquietude, reverberações visuais e substâncias sem nome.

A confluência aqui produzida constitui um momento decididamente pessoal de expressão artística, que amplia a realidade visível, a capacidade de simulação e de encarnação, traduzidas num certo figurativismo que pertence por inteiro à pintura.

José Miguel Gervásio figura em várias colecções institucionais e particulares no País e estrangeiro.


BRÍGIDA MENDES

19 JUN - 24 JUL 2010

Brígida Mendes (Tomar, 1977) licenciou-se pela Faculdade de Belas Arte de Lisboa, seguindo depois para o Royal College of Art em Londres onde, por diversas vezes o seu trabalho foi destacado e premiado pela crítica. As obras apresentadas na exposição final do seu MA recebeu o The Photographers' Gallery Graduate Award 2006.  Este prémio pretende reconhecer o trabalho de um fotógrafo que tenha produzido um corpo de trabalho inovador e criativo. Em Portugal, a par das individuais no Módulo, podemos destacar as colectivas, “Body Sweet Body, comissariada por Luisa Soares de Oliveira, no Centro de Arte de S. João da Madeira  e , Lá fora, comissariada por João Pinharanda, na Fundação EDP.  O interesse que a sua obra tem despertado no meio internacional, traduziu-se em participações em exposições várias, como a Plat(t)form 07 no prestigiado museu suiço de fotografia de Winthertur, In our world-New photography in Britan, na Galeria da Cidade de Modena, acompanhada por um belíssimo catálogo (Ed. Pela Skira com textos de Filippo Maggia e Oliver Richon, entre outros), ou ainda a exposição recente em Paris, Au féminin, no espaço Gulbenkian, comissariada por Jorge Calado (de que se editou também um belíssimo catálogo). A atenção das revistas especializadas tem sido numerosa, como recentemente a holandesa Kunsbeelde.NL, ou Arte Context e Art Notes para citar apenas as estrangeiras. BM vive agora em Amesterdão como resultado de ter recebido uma bolsa da prestigida Rijkakademie. 

Esta é a terceira individual da artista no Módulo, após uma primeira apresentação na exposição colectiva, Epopteia, onde também participou Catarina Saraiva que acabámos de expor. Passando à exposição, Sem título, que agora se inicia há o inesperado de serem trabalhos a cor, instalados num ambiente de pintura, pois até aqui as exposições anteriores foram a preto e branco . Como sempre cada imagem é captada analogicamente a partir de uma situação construída previamente por Brígida Mendes.  Deixámos de encontrar a mãe ou outros elementos da família, para estarmos perante maquetes de paisagens ou outros ambientes habitados por esculturas de pessoas ou animais realizadas pela própria fotógrafa. Estas paisagens ou ambientes de uma realidade algo surreal interrogam a artificialidade da representação ou criticam o quanto limitada é a nossa percepção.  

Brígida Mendes figura nas colecções do Col. António Cachola- Museu de Arte Contemporânea de Elvas, Fundação PLMJ,  em Portugal, nas colecções londrinas, John A. Smith and Vicky Hughes, Union des Banques Suisses e Royal College of Art.

Filippo Maggia escreveu no catálogo da exposição de Modena:

“ Brígida Mendes’s work investigates our perception of reality in relation to historical and present ideas of looking and depicting. Using the act of

construction and implied deconstruction, she examines and overstates the line between fiction and reality where our notion of real becomes ungraspable.

Developing an interpretation of everyday life, her work seeks to create a cultural commentary on different aspects of society, which invite the viewer to look

behind the obvious, developing critical ideas and disavowing pre-established codes of perception.

Humorous and absurdist, her work shows a constructed and alternative reality, which resists interpretation and yet proposes a new dimension of meaning.

Concerned with looking and the role of the spectator, her work explores the factor of perception and reaction in response to artwork – the gap between the

viewer’s observation and comprehension. Experiments around the potentiality of the disguise in photography are assumed as a method of artistic investigation. Mendes’s photographs are unmanipulated images, compositions based on optical devices and strict planning of scenes. Through exploring the staging strategy within her works, Mendes’s creates ambiguous photographs that range from provoking a sense of deception and

illusion to the discredit of mistakes and inaccuracies; dealing in simulation, then dissimulation.

There is a wish to manipulate, although not through technical manipulation but optical, subverting the concept of illusion to make the spectator interpret the deceptive as being truthful. There are no intentions for doubts on the actual photographic image reality, but instead she intends this to lie on manipulation

that is present in the work, making the viewer apprehensive on human capacities to distinguish between fiction and reality.....”

Como resultado da participação do Módulo na Madridfoto onde a Brígida teve uma assinalada presença, a Galeria Nuble de Santander decidiu mostrá-la, em Julho, na Feira de Arte de Santander, e, em final do ano, numa individual na galeria. Nesta altura sairá um novo número da revista Vislumbres, sob a temática da família, onde surgirá uma fotografia desta fotógrafa em diálogo com um texto de um escritor.


CATARINA SARAIVA - ESPELHO (MEU)

8 MAI - 5 JUN 2010

Catarina Saraiva tem vindo a desenvolver um corpo de trabalho diversificado, empregando vários media como o objecto escultórico, desenho, vídeo, e mais recentemente a instalação. Trabalha construindo um corpus fragmentado, mas linear, ancorado em temáticas como a identidade e a subjectividade de género. 

Espelho (meu) dá título à mostra individual que apresenta no Módulo- Centro Difusor de Arte e cujo trabalho se centra no pensar o corpo e o seu reflexo. O conjunto de objectos escultóricos e a instalação, que compõem este núcleo expositivo, são reflexos que questionam as fronteiras do corpo. O espelho, que reflecte a realidade que lhe faz frente, serve de fio condutor para introduzir um discurso que propõe explorar conceitos como a repetição ou a dualidade da linguística.


MARTA SOARES - WALL SURFING

27 MAR– 27 ABR 2010

Marta Soares (Lisboa, 1973) iniciou a sua carreira em princípio da década de 90 afirmando-se com um percurso pessoal e de grande coerência. A obra desta ainda jovem pintora caracteriza-se pela afirmação da fisicidade do material (acrílico), pela reflexão sobre o processo pictórico, pela independência do material em relação ao suporte e, finalmente, pela questão objectual da pintura e a negação do gestual.

Mas sobre a obra de Marta Soares escreveu Carlos Vidal num catálogo recente, sob o título de Escultura e invisualidade: “.....Marta persegue a escultura através da pintura, investe as grelhas de elementos habitualmente heterogéneos...escolhe como visíveis, ou presentificados, os elementos soterrados da pintura, as suas “costas”. É desta reinversão permanente que nasce o informe, e é sobretudo daqui que nasce a pintura, precisamente porque “nasce” e não pré-existe ao processo. Marta enfatiza-o como “formadora” do quadro, não porque seja uma artista “processual” nem “experimental”, mas porque vê no processo uma desocultação da própria pintura.”

Obras suas figuram em prestigiadas colecções institucionais como, C.A.M.- Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Veranneman, Bélgica, Fundação P.L.M.J. e Fundação Carmona e Costa, além das inúmeras presenças em colecções particulares nacionais e internacionais. Presentemente duas das suas pinturas pertencentes à colecção da Fundação Gulbenkian  figuram na selecção de obras de artistas portugueses expostos por 5 anos no espaço da presidência da Comunidade Europeia.

Os trabalhos agora expostos de Marta Soares continuam a pesquisar a possibilidade de um abstraccionismo para a pintura, onde cada trabalho resulta de um processo construção-desconstrução-construção, incorporando todos os acidentes que vão surgindo nas diferentes fases deste processo de pintar. As paredes de qualquer cidade de hoje são fontes de inspiração para o trabalho mais recente de Marta Soares.


MARIANA GOMES - ERRO

27 FEV a 23 MAR 2010

Mariana Gomes continua nesta terceira individual a desenvolver uma pintura de registo abstracto extremamente inovadora onde a associação de cores, as formas e a valorização das diferentes espessidades do material resultam num dos casos mais curiosos da pintura nacional. De salientar também é a ausência voluntária de um apuramento final, um certo humor nas composições obtidas, ou ainda o lado táctil desta pintura.

Luisa Soares de Oliveira no catálogo, Superfícies de contacto, refere: “ Para M.G., o contacto entre a pintura e aquilo que a rodeia é, em primeiro lugar, táctil. E isto mesmo quando não é possível, por imperativos de conservação e segurança, tocar a pintura com as mãos. Pouco importa; advinhamos-lhe uma matéria espessa que assume a sua própria complexidade e que capta a tridimensionalidade da pintura como objecto que se dispõe e expõe num dado espaço. Mas esse espaço sobre a superfície ( e pintar também é sempre cobrir uma superfície com qualquer coisa, estabelecer um contacto entre um suporte plano e uma matéria de cor e forma) não se fica por aqui. Nas suas pinturas há uma permanente interrogação sobre a forma e o modo como interage (como compacta) com outras formas....”.

Mariana Gomes (Faro, 1983) licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e desde a primeira apresentação no Módulo tem despertado um grande interesse junto de críticos e coleccionadores. Erro é o nome dado pela pintora a estes últimos trabalhos, que de alguma forma traduzem como a pintora considera o acto de pintar, uma tentativa continuada em atingir um determinado resultado, sem no entanto o atingir. 


NUNO HENRIQUE - Quarenta Calcos

23 JAN - 20 FEV 2010

Na continuação da política já conhecida do Módulo, iniciamos 2010 com a apresentação de um novo artista, Nuno Henrique, que é natural do Funchal (1982), actualmente bolseiro da Porta 33 no Ar.Co, depois de ter concluído o curso de Escultura na FBAUP. Antes de mais gostaria de salientar o bom acolhimento que o trabalho de Nuno Henrique despertou junto de coleccionadores portugueses e espanhóis, assim como de comissários, que visitaram o stand do Módulo na última edição da Arte Lisboa. 

40 Calcos são agora mostrados em bloco no Módulo e em cada uma das obras figura em alto relevo o nome botânico de uma das espécies da flora da Ilha da Madeira. Mas sobre o trabalho escreveu Nuno Crespo: ”... o artista é apresentado como se fosse um explorador munido de instrumentos precisos de medição e registo e a obra a apresentação de uma viagem, exploratória e iniciática, aos locais mais escondidos da ilha.

O gesto a que se assiste nesta instalação é duplo: por um lado corresponde ao traçar da fisionomia da ilha, por outro  à integração desses elementos num outro universo de sentido. Um mecanismo de construção e transposição próprio da ficção que, como se sabe, é uma arte combinatória: usa o conhecido para dar uma forma, um nome ou uma intensidade ao que não se conhece.

As diferentes espécies botânicas que o artista estuda são pontos de partida para a criação deobjectos (calcos feitos de acordo com o vulgar método arqueológico) que depois de colocados na parede transformam o espaço do museu, num gabinete naturalista: as formas e cores visíveis documentam o mundo natural, são registos de espécies que o artista desloca para dentro do museu e que passam a constituir o centro da atenção. Assim, os calcos (que são negativos de inscrições dos nomes latinos das espécies botânicas) transformam cada objecto fixado na parede num achado arqueológico, peças que reenviam para uma outra dimensão temporal e espacial.

Mas é enquanto metamorfose espacial que esta obra de Nuno Henrique atinge a sua verdadeira dimensão. Nela percebe-se a recuperação da ligação entre arte e natureza que depois do séc. XVII se tem vindo a desfazer. Um vínculo cada vez mais ténue e que aqui se torna intenso e audível. O sentido desta ligação não é, como numa estética kantiana, estabelecido através da experiência da beleza, mas é criado através do percurso (que é uma experiência afectiva) que se estabelece entre a ilha e o visitante do museu.

O interesse do artista na flora madeirense reside não só na forma individual de cada espécie botânica, mas no estado de receptividade e criatividade que aquele que observa a natureza tem de possuir. Um estado no qual, diria Wittgenstein a propósito de Goethe, os pensamentos surgem tão vivos e tão plásticos como a própria natureza e que dá origem à disposição anímica própria daqueles que fazem poesia. Um estado disposicional que não se caracteriza pelo fazer do poema, mas por um certo modo de sentir e intuir o mundo que se habita. E é esta disposição que tanto o naturalista, o poeta e o artista partilham e que Nuno Henrique transporta para o museu contemporâneo.